Reações Adversas (random Reactions)

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  • Words: 24,383
  • Pages: 132
REAÇÕES ADVERSAS por Murilo Correa

novembro de 2008

EDA/FBN Registro: 451.818 Livro: 848 Folha: 478

[email protected] (18) 3223-2797

1

INT./MANHÃ - CASA

1

TELA CLAREIA Estamos na sala da pequena casa de um traficante, iluminada pelo sol da manhã, com uma mesinha baixa no centro, em cima há um cinzeiro, copos, uma garrafa de vodka e ao lado de um maço de L&M Red Label com um isqueiro em cima, em um prato cerca de 100 pedras de crack já embaladas para venda; em frente ao prato uma assustadora pedra de CRACK com pelo menos 400g, amarela, e uma Smith & Wesson 686 carregada. O traficante, branco e magrelo, rosto "chupado" de tanto usar crack; está na janela fumando um cigarro, ele dá o trago mas não bate a cinza, e ela vai aumentando. Vemos a paisagem exterior pela janela. Ele fecha-a e anda até a mesa, senta-se no chão e bate a cinza no cinzeiro, tomando uma lata de PEPSI. Ele fuma um, dois, três, quatro, cinco cigarros, pronto, já tem cinza suficiente, acende o sexto cigarro e o deixa queimando na beirada do cinzeiro, dá o último gole em sua bebida. Começa então a amassar a lata para fumar o crack, arranca o lacre e quebra-o no meio para furar, com um cartão telefônico ele pega as cinzas e joga em cima da lata tomando o cuidado de deixar uma certa depressão no centro, deixa a lata de lado e pega uma faca de cozinha, pega o prato com a pedra e raspa a quantidade que vai fumar, já com lata preparada ele olha para ela e respira fundo, pega o cigarro, tremendo, e dá uma imensa tragada, bate a cinza e o deixa novamente na borda do cinzeiro. Acende o isqueiro e dá a primeira bola, prensa e solta tomando a expressão da mais pura felicidade e satisfação que um homem pode ter, dá mais um trago no cigarro e prepara-se para a segunda. Acende o isqueiro e torna a fumar. Em menos de um segundo a porta logo atrás dele é arrombada e entra a Polícia Civil esperneando no rapaz. POLICIAL 1 Larga isso aí filha da puta! POLICIAL 2 Larga! Anda!!! Vampeta olha imediatamente para a arma e pega-a, a lata permanece na mão esquerda.

(CONTINUA...)

...CONTINUANDO:

2.

Um terceiro policial entra pela porta e acerta-o com um TAPA de mão aberta bem no meio da cara, o golpe faz barulho e o rapaz é arremessado para o lado tamanha a força, a lata e arma voam longe. A delegada entra na casa de colete e com sua automática na mão, morena muito bonita, cabelos compridos. DELEGADA (rindo) Porra Vampeta! Aí é foda... Dez da manhã pô... Ela se agacha em frente a mesinha, passa a mão sobre os papelotes e depois pega o prato com a pedra e cheira-a dando um gritinho arrepiado, quando o nariz fica excitado. DELEGADA Nossa... Ela põe o prato devolta enquanto um policial joga no chão um tijolo de 3kg de crack embalado em plástico e papel alumínio. POLICIAL 3 Olha só que firmeza... TODOS (gargalhadas) Nossa!!! DELEGADA Parabéns palhaço! Você si fudeu!!! CORTA PARA: 2

EXT./DIA - BOCA DE FUMO

2

Vampeta é retirado da casa algemado e colocado na viatura da Narcóticos. A delegada entra noutra viatura e segue sozinha para a delegacia. CORTA PARA: 3

INT./DIA - CARRO

3

No meio do caminho seu celular toca, ela olha a bina e atende dirigindo. DELEGADA Oi filho! Hã... Saí mais cedo porque? Ela ficou doente? Hum... (MAIS...) (CONTINUA...)

...CONTINUANDO:

3.

DELEGADA (...cont.) Tá bom, só vou passar na delegacia e já tô indo te buscar tá? Me espera aí na frente tá? Tchau filho! CORTA PARA: 4

EXT./DIA - DELEGACIA

4

Ela chega na delegacia, desce da viatura, um policial próximo a observa enquanto ela tira o colete, depois joga a chave para ele. DELEGADA Segura aí Marcão! O policial se assusta e deixa a chave cair no chão. Ela entra em seu carro e sai de cena. CORTA PARA: 5

EXT./DIA - ESCOLA

5

Algumas crianças saindo outras conversando. Movimentação em frente à escola, as estagiárias do colégio coordenam a saída, vemos vendedores de doces e demais guloseimas. O carro da delegada encosta e uma das crianças que conversava deixa o grupo e vai até ele, entra e dá um abraço na mãe. O carro segue adiante saindo da cena. CORTA PARA: 6

EXT./DIA - CASA DA DELEGADA

6

O carro encosta em frente à casa e os dois saem com pacotes do McDonald’s, o menino sai sorvendo um milkshake. Eles entram na casa rindo, felizes. O lugar é grande, dois andares. CORTA PARA: 7

EXT./MADRUGADA - CASA DA DELEGADA Sons de grilos... Um Chevette marrom, surrado, lentamente pára em frente à casa, com as luzes apagadas.

7

4.

8

INT./NOITE - CASA DA DELEGADA

8

Tiros do interior da casa silenciosa. No quarto, detalhe para um rádio-relógio marcando 04:48am que muda para 04:49am antes de sair de cena, ao lado do relógio potes de comprimidos calmantes e um copo d’água pela metade, ela está dormindo na cama, nos aproximamos de seu rosto. Um braço vestido com uma blusa e luvas pretas aparece do lado esquerdo e cobre a boca e o nariz da delegada com um lenço. Tudo é feito com calma, não vemos o sequestrador que realiza o bote lentamente, com cuidado ao encostar para não acordá-la, alguns segundos e ela faz algum movimento com o rosto e os olhos abrem rapidamente e olham para lugar nenhum, ela desmaia sem sequer acordar. CORTA PARA: 9

INT./MADRUGADA - GARAGEM

9

Ela acorda de camisola, no chão ao lado de seu carro, sem entender como fora parar ali. Logo à sua frente está a porta, ela olha para os lados e novamente para a porta, não olha para trás, levanta-se e vemos atrás dela e fora de foco duas pequenas pernas esticadas vestidas com roupas que lembram pijama e meias coloridas nos pés, ela vai até a porta para tentar abrir, está trancada. Então ela vira-se e vê o corpo de seu filho, enforcado, as mãos e a cabeça estão azuis, está morto a algum tempo já. O absoluto desespero toma conta da mulher, ela corre e segura seu filho erguendo-o, mais não consegue soltar a corda sozinha, grita terrivelmente. Alguns segundos depois a porta subitamente se abre. Ela olha para a porta ainda segurando o corpo e imediatamente leva uma bala no meio dos olhos, o som do tiro é ensurdecedor e imediatamente pára a música, ela cai morta no chão em silêncio. Não vemos o assassino. O corpo do menino balança pendurado. Os dois corpos sem vida, sozinhos na garagem. TELA ESCURECE CORTA PARA:

5.

10

INT./DIA - SALA DE AULA

10

TELA CLAREIA Sala de aula vazia, mesas e cadeiras alinhadas, quadro negro. A porta se abre e as crianças começam a entrar, cerca de 40 alunos de uma 5ª série, rindo, conversando, correndo, empurrando-se; sentam-se em seus lugares. Os grupos se formam, alunos viram as mesas para ficarem frente a frente. Os últimos a entrar são Rodrigo e Julia, ele é gordo, ela é morena e seu cabelo cobre metade do rosto, liso natural, muito bonito; sentam-se no começo da fila, um do lado do outro e conversam em voz baixa. Um rapaz aproxima-se dos dois, ele é mais alto e imponente. Ao perceberem a chegada do rapaz, os dois olham para o chão, tentando ignorá-lo, ele fala com Rodrigo. RAPAZ E aí gordo!? Toca aí! Ele estende a mão para dar um "toque" com Rodrigo, que olha com medo para o rapaz e, tremendo, retribui o toque de mão. O rapaz então desvia sua mão e gesticula como se tocasse um violão. RAPAZ Deixa que eu toco sozinho! A classe cai na gargalhada, Rodrigo permanece em silêncio, humilhado. O rapaz olha para Julia e dá uma risada de puro deboche e se afasta. Julia também se abate. A professora entra na sala. PROFESSORA Bom dia gente... CORTA PARA: 11

EXT./DIA - RUA

11

Vemos um carro preto vindo em nossa direção em alta velocidade, o ronco do motor aumenta conforme o carro se aproxima, ele passa e giramos para acompanhá-lo, revelando novamente a casa da delegada, agora com várias viaturas, ambulâncias, imprensa e curiosos... (CONTINUA...)

...CONTINUANDO:

6.

Legenda: Treze dias para o aniversário Estaciona próximo à casa. REPÓRTER (OFF) A delegada Valéria Cristina de Souza e seu filho de apenas 7 anos foram encontrados mortos dentro de casa por um policial, esta manhã. Segundo a assessoria de imprensa da Polícia Civil eles foram vítimas de latrocínio: roubo seguido de morte. Os corpos foram encontrados na garagem. Mais detalhes serão divulgados à tarde quando o delegado geral Júlio Mesquita participará de uma coletiva na sede do DHPP... 12

EXT./DIA - CASA DE VALÉRIA

12

O delegado desce do carro e anda pelas pessoas, repórteres, policiais, lentamente ele vai até a garagem, está abatido. Branco, 34 anos, cabelos curtos, usa um terno preto que brilha como se fosse couro. CORTA PARA: 13

INT./DIA - GARAGEM

13

Dois detetives, uma mulher e um homem, esperam o delegado dentro da garagem. A mulher fuma um cigarro e bebe dum copo de plástico algo que se parece com uísque, morena, cerca de 30 anos. O homem também fuma, os dois não se olham muito. O delegado coloca luvas de plástico: DELEGADO Alguém entrou? DETETIVE (MULHER) Não não, a perícia ainda nem chegou pra olhá... DELEGADO Por que não? Ele olha para a cena um momento, ela apaga seu cigarro no copo de uísque.

(CONTINUA...)

...CONTINUANDO:

7.

DELEGADO Marli. MARLI Oi. DELEGADO Por que não? MARLI Por que não o quê? DELEGADO Porque a perícia ainda não entrou? MARLI Não chegaram! As duas únicas unidades que estavam perto daqui caíram numa blitz falsa e deu a maior confusão, tá vindo outra lá da zona oeste mas vai demorar uns 25 minutos ainda... DELEGADO Hm... Meu Deus, pra quê isso... MARLI O filho não apareceu na escola, ninguém atendia celular nem telefone. Mandaram uma viatura na casa dela, o carro tava na garagem, e um vizinho disse que ouviu uns gritos... Aí o policial entrou... O delegado analisa a cena agachado próximo aos corpos. O garoto, mãos e pés praticamente pretos, o corpo da mulher caído à direita. As calças do pijama do garoto estão levantadas até acima do joelho. DELEGADO Por que o cara enforcou o menino e deu um tiro nela? Marli não responde... Ele observa todo o local em silêncio. DELEGADO O cara enforcô o menino e dexô pendurado aqui antes que a Valéria visse, quando ela viu, tentou segurá, mas não podia levantá o moleque e tirá a corda (MAIS...) (CONTINUA...)

...CONTINUANDO:

8.

DELEGADO (...cont.) ao memo tempo, por isso que as calça tão levantada ó, ela tava segurando ele, foi quando o assassino entrou e atirou, e dexô eles aqui... MARLI E você sabe tudo isso exatamente como? DELEGADO Não sei, mas que outra explicação você tem? (...) alguém anda assistino filmes demais. MARLI Deve ser você... O delegado olha para Marli, estranhou o comentário. DELEGADO Que que foi, Marli? Marli olha para ele, visivelmente abatida, prestes a dizer algo: VOZ (OFF) Chegou! A perícia chegou! MARLI Olha, chegô rápido até... 14

INT./DIA - GARAGEM DE VALÉRIA

14

Ele observa enquanto a perícia tira fotos. Com o brilho dos flash’s ele acha que viu algo no corpo do menino que não havia visto ainda e fita-o, mais flash’s e ele percebe um pequeno volume no bolso da camiseta do pijama. Pede licença à perícia e vai até o corpo, com uma pinça retira o que está dentro do bolso: Uma fitinha de amarrar cabelos branca com fios de renda. Ele reluta achando que pode não ser nada, mas guarda o objeto no saco de armazenamento. A perícia retoma o trabalho e ele sai. CORTA PARA:

9.

15

INT./DIA - DELEGACIA

15

O delegado está em seu escritório, ao telefone, em sua mesa uma plaquinha que diz: "Del. Rubens de Aguiar". RUBENS Não... Não... Não vô dá entrevista nem declaração nenhuma agora... tá muito cedo. Sei lá! Fala que tá sobre sigilo, dá um jeito não vô fala com ninguém agora não hein? Dexa queto... Seu celular toca, ele desliga o telefone e pega o aparelho. Na tela vemos a foto de uma mulher, a identificação diz Fer, sua esposa. É um aparelho iPhone e ele pode ver sua mulher onde ela estiver e vice-versa. FERNANDA Oi amoreco! RUBENS Oi linda... FERNANDA Tudo bem aí? RUBENS (abatido) Tudo bem sim, tudo certo. FERNADA Ih... sua cara não é de tudo certo. Que que foi? RUBENS Ah... um caso que apareceu ae. Um assassinato. FERNANDA Ai credo amor! Você vai investigá? RUBENS Vou. FERNANDA O que houve? RUBENS Não não, dexa queto.

(CONTINUA...)

...CONTINUANDO:

10.

FERNANDA Ah me conta amor... RUBENS Eu não faço isso, você sabe. FERNANDA Ah me conta! RUBENS Você me conta sobre os acidentados que chegam pra você gritando de dor e jorrando sangue? Não. São coisas que a gente não precisa saber, não compensa saber... Assim como meu trabalho, eu mexo com gente ruim, que faz coisas ruins, você não precisa saber dessas coisas... FERNANDA Tatatatá! E no mais? RUBENS Sua mãe ligou querendo saber se você levô agasalho. (risos) FERNANDA Por que ela não ligô pra mim? RUBENS Pra não pagá ligação internacional logicamente. FERNANDA Hm... RUBENS Falei pra ela que você só levô uma mochila e ela surtô. FERNANDA Ah nem me fala! Vô liga pra ela... mas você também num ajuda né, pra que fala que eu só trouxe uma mochila? Só pra ela ficá brava? RUBENS Aham... FERNANDA Você não presta mesmo! (risos) RUBENS Eu sei... e por aí? Tá curtindo?

(CONTINUA...)

...CONTINUANDO:

11.

FERNANDA Imagina!!!! O hotel é perfeito! O frigobar já tava cheio de cerveja quando eu cheguei no quarto! Hahahaha ontem já fui pro congresso alegrinha! Gargalhadas. RUBENS Bonito hein? FERNANDA Ah! Tá muito bom aqui amor... mas tô com saudade... RUBENS Eu também minha linda. Quando você voltar vamos assistir um show de blues, faz tanto tempo que a gente não faz isso... FERNANDA É verdade. Ah! Falando em Blues, olha só, comprei uma coisa pra você... Ela mostra uma camisa pelo celular, com uma estampa de uma guitarra que toma quase toda a peça. RUBENS Nossa! Que muito loca essa camisa... Linda! FERNANDA Eu sei... Alguns segundos de silêncio. RUBENS Te amo Fer. FERNANDA Eu também te amo amor, tô morrendo de saudades, mas calma daqui duas semanas eu chego. No meu aniversário! RUBENS (olhando no calendário) Duas semanas!?!?! Peraí vai caí que dia? Meu Deus do céu vou ter que ligá pra bikat’, digo, tenho que ligá pra Dani pra cancelá a festa, cancelá as mina as drogas, tudo... Gargalhadas. (CONTINUA...)

...CONTINUANDO:

12.

RUBENS Tô com saudade também menina. Se cuida por aí hein! FERNANDA Podexá! E você se cuida também. Nada de ficá a madrugada inteira assistindo filme hein! Faz mal pra saúde, você precisa dormir bem. RUBENS Considerando que quando você tá aqui eu praticamente não durmo memo hehehe... Faz sentido. Brigado amor, mil beijos, tchau! FERNANDA Beijo amor... tchau! CORTA PARA: 16

INT./MADRUGADA - APARTAMENTO DE RUBENS

16

A decoração do apartamento fora desenvolvida para realçar-se na escuridão da noite, a iluminação, os contrastes de branco, preto e prateado chamam a atenção. Ele está dormindo esparramado no sofá, em uma mesa baixa logo à frente está toda a papelada do caso dos assassinatos, um frasco azul aberto, no rótulo vemos DIAZEPAM e na televisão um filme. CORTA PARA: 17

EXT./MANHÃ - CIDADE DE SÃO PAULO

17

Tiros da cidade movimentada. Manhã ensolarada. Legenda: Doze dias para o aniversário Jornais expostos à venda nas bancas com a manchete: "Delegada Valéria Cristina de Souza é executada junto com o filho dentro de casa. A polícia suspeita que o crime foi encomendado por uma facção criminosa". CORTA PARA:

13.

18

INT./DIA - DELEGACIA - SALA DE RUBENS

18

No escritório o delegado preenche alguns papéis, rádio ligado em AM, ouvimos um noticiário falando sobre o trânsito caótico da capital, quando: LOCUTOR (OFF) E nós temos agora aqui na linha o Secretário de Segurança Pública de São Paulo, Marcos Torino, para nos dar mais informações sobre o terrível assassinato da delegada Valéria Cristina de Souza e seu filho de apenas 7 anos... Rubens, nervoso, desliga o rádio e leva as mãos à cabeça, suspira. É quando um detetive, o mesmo que esperava ao lado de Marli no começo, entra na sala, ele abre a porta de sopetão, sem bater, e o delegado se assusta. RUBENS Porra Jadson! JADSON Desculpe senhor. Mas parece que descobriu-se alguma coisa... CORTA PARA: 19

EXT./DIA - IML

19

Vemos a entrada do Instituto Médico Legal. VOZ (OFF) Este foi o único projétil encontrado na cena... 20

INT. - LABORATÓRIO NO IML

20

No laboratório o médico legista mostra aos policiais o projétil que fora encontrado no local. MÉDICO Nove milímetros... Mas o interessante tá aqui ó. Ainda tem as marcas de identificação da arma. RUBENS Ótimo! Descobrir a procedência da arma já é alguma coisa... (CONTINUA...)

...CONTINUANDO:

14.

Rubens já ia deixando o laboratório quando Jadson chama-o novamente. JADSON Senhor, não é só isso... aquela fitinha de cabelo que veio no saco plástico. Encontramos um pedaço de fio de cabelo nela, e não é de nenhum dos dois. RUBENS Lindo! Agora cê vai fazê um DNA nesse fio de cabelo e nós vamo tê um nome né? Esse é o espírito, parece até o CSI! Hehe! Rubens deixa o local, o médico e o detetive conversam. MÉDICO Esse delegado fica em cima de vocês hein, vai na cena do crime, vem aqui, parece até policial de filme. JADSON (acendendo um cigarro) Parece memo... Ele gosta de ver a cena antes da perícia, dá aquela primeira olhada... Ele é acelerado desse jeito o tempo todo pra fazê as coisa, tem hora que enche o saco. MÉDICO Por quê? JADSON (nervoso) Por que ele fica no pé ué... qué tudo certinho, bonitinho, bem feitinho, ah vai si fudê! O cara acha que vive em Hollywood, que as coisa funciona assim, tsc tsc tsc! Aí é até massa quando vem um maluco e faz umas fita errada dessa e ninguém consegue descobrí quem é, dae é que ele fica lôco memo hehehe. MÉDICO Mas o cara matou a delegada e o filho dela... JADSON Fazer o quê... não gostava dela mesmo.

(CONTINUA...)

...CONTINUANDO:

15.

MÉDICO Pelo amor de Deus homem! JADSON Tá bom! Tá bom... ela era polícia, a gente vai investigá, lógico. Mas eu não tenho que gostá dela. MÉDICO Tô falando de uma mãe que viu o filho morto, antes de morrer. Já viu maldade assim? JADSON Isso é o que o Rubens acha que aconteceu. E eu não entendo nada sobre mães e filhos, a minha mãe morreu quando eu tinha 2 anos... MÉDICO Bom. Ela era amiga do Rubens... JADSON Tô ligado... Tsc! Jadson deixa o local e o médico legista olha-o ir embora, inconformado com as palavras do policial, depois volta ao trabalho. CORTA PARA: 21

INT./DIA - SALA DE AULA

21

Sala lotada, todos em silêncio, fazendo prova, a professora sentada em sua mesa. Julia levanta-se e vai até ela. A professora percebe que Julia se aproxima e fica visivelmente incomodada. JULIA Professora esqueci o apontador... A professora olha para Julia com desprezo, depois olha para a sala. Localiza um apontador sobre a mesa de uma das alunas. PROFESSORA Pede pra Valéria ali. Julia olha decepcionada para a professora que a ignora. Com medo ela caminha lentamente até a mesa da Valéria que percebe sua aproximação. (CONTINUA...)

...CONTINUANDO:

16.

JULIA Valéria... Valéria olha para Julia e dá um grito estridente que assusta toda a classe e Julia deixa seu lápis cair, segundos depois a classe cai na gargalhada. Julia pega seu lápis do chão, humilhada, quando se levanta Valéria está segurando o apontador e estende-o para ela, sorrindo maldosamente. VALÉRIA Tó... CORTA PARA: 22

INT./DIA - QUARTO ILUMINADO DE MANHÃ

22

Closes de um quarto de menina. Julia está na janela, olhando a paisagem. Vemos seu rosto de lado, em perfil, o olhar distante. Ela vira-se e vemos seu olho cego, branco e realmente assustador. Ela sai de cena. A paisagem pela janela. CORTA PARA: 23

EXT./DIA - SAMPA - DOMINGO

23

Tiros da cidade na típica calmaria do domingo, praças, padarias, saída de uma igreja, mendigo dormindo na calçada. Legenda: Dez dias para o aniversário Um cruzamento de avenidas com certo movimento, do nada dois carros envolvem-se numa batida. Um dos motoristas grita: MOTORISTA (OFF) Filha da puta!!! CORTA PARA:

17.

24

INT./DIA - APARTAMENTO DE RUBENS

24

Na sala, sem camisa, usando apenas um calção, ele toca sua Fender Stratocaster SRV, vemos posters de Keith Richards e Stevie Ray Vaughan, ele está sentado em um sofá, destilando licks de blues. Giramos ao redor dele e vemos a mesa baixa com todas as fotos e papelada do caso, na parede um pôster do Jimmi Hendrix. O telefone do apartamento toca, ele encosta a guitarra e atende. RUBENS Oi. Ele anda falando ao telefone, até a sacada do apartamento. Com a mão esquerda ele segura o telefone, com a direita ele coça sua testa, a palheta ainda presa entre os dedos. Ao ouvir o recado ele fica imóvel, a palheta cai dos dedos e vai ao chão. CLOSE nela caindo. CORTA PARA: 25

EXT./DIA - RUA EM FRENTE AO PRÉDIO

25

Um edifício residencial de 20 andares. Vemos a fachada na frente do prédio cheia de policiais. 26

INT. - ELEVADOR

26

Rubens toma uma pílula de um frasco vermelho e depois guarda-o de volta no bolso. Vemos o indicador de andares do elevador contando: 9, 10, 11, 12. Ouvimos o "plim" e a porta se abre, policiais perambulando. 27

INT./DIA - EDIFÍCIO - 12º ANDAR

27

Rubens sai do elevador, o lugar já está tomado por policiais, ele caminha até o apartamento, o policial que telefonou aborda-o. INVESTIGADOR Bom dia senhor Rub--

(CONTINUA...)

...CONTINUANDO:

18.

RUBENS (interrompendo) Fala. INVESTIGADOR Os vizinhos reclamaram do choro e latidos do Yorkshire por 5 dias, então o fedor fez o porteiro chamar a polícia. Mãe e filho de 10 anos, a cena do crime parece uma fotocópia daquela da delegada. RUBENS Cê sabe até o nome do cachorrinho? INVESTIGADOR É a raça senhor, Yorkshire, minha namorada tem um. RUBENS Hm... 28

INT./DIA - APARTAMENTO

28

Rubens entra no local e imediatamente leva sua gravata ao nariz. RUBENS Nossa. INVESTIGADOR O IML tá esperando lá embaixo a perícia liberar... RUBENS Hm... E os vizinho? INVESTIGADOR Só uma velha que mora em frente, disse que não viu nenhuma movimentação e mesmo assim o cachorro não parava de chorar. A última vez que a viram foi na festa junina do condomínio, parece que ela tomou quentão demais e o marido levou ela pra cima mais cedo... Depois... Os dois dizem juntos e se olham surpresos. INVESTIGADOR E RUBENS Sumiu... Ele põe as luvas de plástico e examina os corpos. (CONTINUA...)

...CONTINUANDO:

19.

Tiro na cabeça da mãe, menino enforcado, corpos já em estado de putrefação. O garoto está vestido apenas com um pequeno short sem bolsos. Ele olha para o investigador. RUBENS Digitais? INVESTIGADOR Só as das vítimas senhor. RUBENS Luvas... INVESTIGADOR Senhor? RUBENS Luva. O investigador pega um par de luvas de plástico e estende ao delegado. RUBENS Não não. Já tenho, tô falando que o assassino deve ter usado luvas. INVESTIGADOR Ainda não procuramos por todo o apartamento, senhor. RUBENS Não vai ajudar muito, vão achá um milhão de impressões, até definir cada uma... Com essa rapidez de vocês então... Ele se abaixa ao lado do corpo da mulher. RUBENS E ela? INVESTIGADOR Karina Almeida Batista, professora, o menino chama Murilo. RUBENS Tsc... Ele se levanta e vai caminhando até a porta quando pára e vira-se lentamente para a cena, olhando para o corpo do menino enforcado, sem camisa e short sem bolso. Mesmo assim ele caminha até o corpo e, cuidadosamente, tenta olhar a parte de trás do short, há um bolso traseiro. (CONTINUA...)

...CONTINUANDO:

20.

Com uma pinça ele verifica se há algo dentro do bolso, e retira uma fitinha de amarrar cabelos branca com fios de renda, igual à primeira. Marli entra na cena neste momento, Rubens mostra a ela o que encontrara. RUBENS Olha só... MARLI Ai ai ai... CORTA PARA: 29

EXT./DIA - CALÇADA EM FRENTE AO PRÉDIO

29

Encostados na viatura os dois conversam, Marli fuma. RUBENS Isso vai matá você hein muié... MARLI Fazê o quê... se eu não fumo, quem me mata é a vontade... RUBENS Meu pai falava a mesma coisa. Hehehe. MARLI É uma bosta isso, só destrói. E quanto mais destrói, mais você qué, é o fim! RUBENS Será que é serial Marli? Como pode duas fitinhas iguais? Isso é coisa de filme sabe, o assassino vai deixando pistas... MARLI Duas crianças Rubinho, duas fitinhas de cabelo pra criança. Pode ser coincidência. RUBENS Ah! Por favor, dois meninos com fitinha de cabelo!? Os dois enforcados, a mãe com um tiro na cabeça... MARLI Não sei... Pode até ser (...) Tsc, tá então a gente tem que achar uma ligação entre as (MAIS...) (CONTINUA...)

...CONTINUANDO:

21.

MARLI (...cont.) vítimas, vou pesquisar a vida das duas, se não der em nada, vejo a dos filhos, se também não der em nada, e aí? Rubens abre um pacote de "chips" e começa a comer, Marli também come. RUBENS Bom... tomara que dê. E aquele DNA do cabelo quanto tempo demora pra ficá pronto? MARLI Pelo menos uns dez dias, se o dono não tiver antecedentes pode demorar mais ainda. RUBENS E a arma? MARLI Ah! Isso demora mais ainda! RUBENS É o fim do mundo, demora tudo, tudo demora! MARLI Pois é... RUBENS Mesmo assim, se isso nos der um nome... MARLI Acho que não vai ajudar, nove milímetros é de uso exclusivo, provavelmente foi roubada, vão achá o antigo dono... RUBENS Então a gente não tem nada? MARLI Tem o fio de cabelo. RUBENS Pra daqui a dez dias, mas agora a gente não tem nada? MARLI Nada.

(CONTINUA...)

...CONTINUANDO:

22.

RUBENS Tsc! (...) E você e o Jadson? Lá na casa da Valéria parecia que vocês estavam meio esquisitos... MARLI Ah. A gente anda brigando... Tsc. Dexa queto vai... Marli entra na viatura. Rubens a observa. CORTA PARA: 30

INT./MADRUGADA - APARTAMENTO DE RUBENS

30

No sofá, ele abre o frasco azul de Diazepam e toma uma pílula. Está olhando as fichas das vítimas sobre a mesa. Sem nada de interessante ele começa a se estressar, olha a ficha de Valéria e de seu filho, depois olha a de Karina e seu filho, esbraveja e joga as fichas em cima da mesa. RUBENS Mas é um caralho! Cada maluco nessa cidade... Rubens dá uma risada sem vergonha e pega sua tinteira Parker no bolso de dentro do seu paletó, desmonta-a, dentro não há carga de tinha, há um baseado. Ele acende e dá uma grande tragada, prensa e solta suspirando relaxado. Sem nenhum interesse ele acaba olhando as fichas em cima da mesa, por acaso as duas fichas das mulheres caíram uma em cima da outra e ele consegue ver um ítem que está próximo entre as duas folhas: "Idade: 30 anos." Lentamente começa a pensar sobre aquilo e então pega as duas folhas e olha-as uma do lado da outra, são duas as semelhanças, idade e local de nascimento: Presidente Prudente - SP. Ele imediatamente pega o telefone sem fio, quando ia apertar o botão da linha o telefone toca e Rubens dá um grito de susto, na bina aparece: Marli Det. RUBENS Não acredito... Atende.

(CONTINUA...)

...CONTINUANDO:

23.

RUBENS Clínica de Aborto Criança Esperança, boa noite! MARLI (gargalhadas) Sabia que você ia tá acordado ainda! RUBENS Você não vai morrê nunca Marli. MARLI Ué porquê? RUBENS Nada não, esquece. E ae o que que manda? MARLI Você nem imagina o que eu descobri. RUBENS O quê? MARLI As duas tinham 30 anos e nasceram na mesma cidade! RUBENS Não diga... CORTA PARA: 31

EXT./DIA - MANHÃ CHUVOSA - DELEGACIA

31

Legenda: Nove dias para o aniversário O carro de Rubens chega na delegacia, ele sai correndo por causa da chuva forte. 32

INT./DIA - ESCRITÓRIO

32

Rubens pesquisa a cidade de Presidente Prudente na Internet, encontra algo sobre alguns crimes, informações comuns, fatos históricos, todavia nada que fosse realmente importante. Marli entra. MARLI Bom dia... RUBENS Bom dia!

(CONTINUA...)

...CONTINUANDO:

24. MARLI

Café? Ela tem duas xícaras nas mãos, põe uma na mesa do delegado. RUBENS Não obrigado. Detesto café... você sabe. MARLI Toma o café. Ele olha para Marli, pega a xícara e cheira-a. RUBENS Nossa que delícia! Nada como um scotch às nove e meia da manhã! (...) Fuma igual uma caipora e bebe uísque de manhã, é bem esse o caminho memo. Hehehe! Dá um gole generoso e ainda faz "Ahhh!". MARLI Vai precisar... Rubens olha para Marli que observa a chuva pela janela, trêmula, fumando um cigarro e chorando. CORTA PARA: 33

INT./DIA - BANHEIRO

33

Vemos um espelho de frente, abaixo dele a pia, no reflexo a parede atrás, preso a ele está uma foto de uma mulher, loira, segurando seu bebê e sorrindo. Ouvimos um falatório fora da cena. Ouvimos as vozes de Rubens e Marli chegando no local, as vozes vão ficando mais próximas, mais altas, estão chegando ao banheiro. A porta se abre, giramos gira para a esquerda e vemos Marli e o delegado entrando no banheiro, Rubens fica estarrecido, leva a mão ao rosto e hesita por alguns segundos, Marli não contém as lágrimas... todos estão apavorados. Giramos para a direita e vemos, no chão, dois corpos: uma mulher loira e um bebê, os corpos estão encharcados e tem muita água no chão. Enquanto Rubens olha para a cena um policial lhe dá os detalhes.

(CONTINUA...)

...CONTINUANDO:

25.

POLICIAL O nome é Janine Ferreira Ribelatto, 28 anos, solteira, arquiteta, tinha bastante dinheiro, fez fertilização in-vitro, a criança nasceu faz 3 meses só... Como sempre ninguém viu nem ouviu, a família mora lá em Santa Catarina, já foram avisar, o senhor precisa assinar esses formulários aqui e... Fechando em Rubens, que observa a cena imóvel, o som da voz do policial vai diminuindo ao mesmo tempo que o som de gritos de mulher aumentam. CORTE RÁPIDO PARA: 34

INT./BANHEIRO - RUBENS IMAGINANDO O OCORRIDO

34

Close por trás de Janine retirando o bebê da banheira cheia d’água, gritando terrivelmente. Ela põe o corpo sem vida da criança no chão, pânico total. Ouvimos o som da porta se abrindo, Janine olha e imediatamente é alvejada na testa e cai, saindo de cena. 35

INT./BANHEIRO - DE VOLTA

35

POLICIAL (continuando) Tem umas câmeras de vigilância na rua, mas nunca tão funcionando, num sei porque eles põe essas coisa nos poste; é pro povo olhá e achá que tem alguém vigiando... Rubens repara que Janine usa uma fitinha branca nos cabelos, igual às outras. Rapidamente vira e sai, Marli o acompanha, o policial, que ficou falando sozinho, olha os dois irem embora... CORTA PARA: 36

INT./DIA - VIATURA - MARLI DIRIGINDO

36

RUBENS Vô fala com o legista hoje... Tô com um palpite... já fizeram a ficha dela?

(CONTINUA...)

...CONTINUANDO:

26.

MARLI Vai tá na minha mesa quando a gente chegá. (...) Como alguém consegue fazer isso? RUBENS Gente doente Marli. Esse maluco tá fudido, quando ele caí ele já era... MARLI É mais quando? Quando ele vai cair? Não temo nada. Absolutamente nada! Só aquele maldito fio de cabelo que pode ser de qualquer um... RUBENS É... Tá foda... MARLI Que palpite você tem? RUBENS Vô falá pra ele acelerá a autópsia pra sabe se a bala saiu da mesma arma. MARLI Hm... 37

EXT./DIA - SEMÁFORO AO LADO DE UMA PRAÇA

37

Vemos o sinal passar do verde para o amarelho e depois para o vermelho. A viatura pára no semáforo. RUBENS Ela tinha só 28 anos e fez fertilização in-vitro? MARLI Vai ver ela não gostava de homens... O delegado repara num rapaz sentado no banco da praça bem ao seu lado, o rapaz encara-o. O delegado fica incomodado, mas o sinal logo se abre e eles seguem caminho...

27.

38

EXT./DIA - PRAÇA

38

O rapaz que Rubens havia reparado está sentado no banco tranqüilo, jovem, branco, cabelos pretos e curtos, piercing no canto direito do lábio inferior. Um homem senta-se ao lado dele. HOMEM E aí? RAPAZ Já foi três... HOMEM Bom... O homem entrega um pequeno papel ao rapaz. HOMEM Tem outra aqui. RAPAZ Falou. O homem se levanta e sai para a direita, o rapaz acende um cigarro e sai para a esquerda. CORTA PARA: 39

EXT./DIA - QUADRA DE FUTSAL DA ESCOLA

39

Jogo entre alunos na aula de Educação Física. Rodrigo é um dos goleiros. Ele leva o primeiro "frango", os amigos repreendem-no severamente, xingando e dando tapas. Noutro lance, Rodrigo leva uma bolada na barriga, reclama da dor, a bola sobra para o atacante do time adversário que marca o gol. Os companheiros de time de Rodrigo começam a espancar o menino que grita desesperado. CORTA PARA: 40

INT./DIA - DELEGACIA

40

Marli caminha pela delegacia até chegar em Rubens, com o relatório nas mãos.

(CONTINUA...)

...CONTINUANDO:

28.

MARLI Ela também era de Prudente. Sua tese tá cada vez mais próxima... REPÓRTER 1 (OFF) É verdade que os últimos dois assassinatos possuem as mesmas características do da delegada Valéria? CORTA PARA: 41

INT./AUDITÓRIO DO DHPP

41

O delegado geral Júlio Mesquita dá uma entrevista coletiva. Dezenas de repórteres e fotógrafos se espremem. JÚLIO Ainda é muito cedo para chegarmos nesse tipo de conclusão, as investigações ainda estão em andamento. REPÓRTER 2 Tem algum suspeito? JÚLIO Essa informação é sigilosa. REPÓRTER 3 Este é um caso de assassinato em série? JÚLIO Como eu disse ainda é muito cedo para chegarmos a esse tipo de conclusão. Eu garanto que o Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa não vai descansar até solucionar esse caso. REPÓRTER 2 Tem alguma pista? JÚLIO Essa informação é sigilosa. REPÓRTER 1 Qual informação que o senhor pode dar?

(CONTINUA...)

...CONTINUANDO:

29.

JÚLIO Que o caso está sob segredo de justiça... CORTA PARA: 42

EXT./DIA - SAMPA

42

Tiros de televisões em mostruários e jornais nas bancas com as manchetes sobre os assassinatos, em "OFF" ouvimos vários trechos de noticiários de rádio e TV sobre o ocorrido, o alarde da imprensa é total, manchetes referem-se ao assassino desconhecido como o novo "maníaco do parque". RADIALISTA (OFF) Segundo informações não oficiais, parece que o assassino deixou uma fita de amarrar cabelo igual em todas as cenas, será este o "maníaco da fita"?. Legenda: Oito dias para o aniversário CORTA PARA: 43

INT./DIA - BANHEIRO

43

Rubens lava o rosto na pia de frente para o espelho. Ele se olha e percebe seus olhos vermelhos e pupilas dilatadas. Close nos olhos. RUBENS Nossa... Ele tira do bolso interno do paletó um colírio de embalagem azul, pinga-o nos olhos e sai de cena. CORTA PARA: 44

INT/DIA - RESTAURANTE Rubens sai do banheiro do restaurante, vai até a bancada de self-service, pega seu prato e começa a se servir.

44

30.

45

INT./DIA - RESTAURANTE

45

Rubens almoça sozinho na churrascaria; suando, olhos baixos, comendo muito. Sem querer, começa a reparar em uma moça atrás dele que fala ao celular. Loira, cabelos curtos e lisos, muito bonita, quarenta e poucos anos. MULHER Eu ti falei! Eu falei pra você, pra que ir pra um fim de mundo que é Presidente Prudente pra fazê uma porcaria de faculdade de Produção Musical? Você podia muito bem ter arrumado um curso parecido aqui e... (...) Aé? Cê acha que em São Paulo não tem curso de música? É é, de produção musical! Tá! Edaí? Lógico que tem essas coisa aqui. Mas não, os amigos vão pra Prudente eu tenho que ir junto, senão eu morro né? Meus amigos que foram no velório do meu pai, me ajudaram, tananã, meus amigos! Nossa! Tudo fumando, bebendo, fazendo sei lá mais o que e você aí no meio. Agora me liga pra fala que bateu o carro? Ah pelo amor de Deus! Você é uma criança que acha que sabe das coisas isso que você é! Rubens ri disfarçadamente. MULHER ...não, eu vô pagá, eu vô pagá eu sou burra, sou idiota, vou pagar, "minha mãe é médica, otária, ela paga as conta" mas você quer saber? Dessa vez não vai ser tão fácil não, dessa vez eu só vou pagar se você subí num ônibus hoje e me trazê a nota da oficina, porque aqui eu ainda tenho uma porção de coisa pra fala prá você viu rapaz? Você vem? Hm? Tá bom, me liga quando chegar. Desliga o telefone na cara do filho, suspira de nervoso e então retorna ao seu almoço, Rubens faz o mesmo. Após terminar, Rubens levanta-se e vai até ela.

(CONTINUA...)

...CONTINUANDO:

31.

RUBENS Com licença senhora? MULHER Sim. RUBENS Eu sou policial, meu nome é Delegado Rubens e eu não pude evitar e acabei ouvindo sua áspera conversa com seu filho a pouco e... MULHER O senhor tem filho, delegado? RUBENS Não senhora. MULHER Ah! Sorte sua... RUBENS Acontece que estou investigando um caso que, de certo modo, envolve a cidade de Presidente Prudente, só que eu não conheço nada sobre a cidade, a senhora, por ter o filho estudando lá, já deve saber algo mais do que eu, talvez, eu que não sei nada. Será que por acaso não teria algo que a senhora não se importaria em me contar? Alguma história que ouviu, pessoas que conhece, não sei, é... é... na verdade... (...) Rubens presta atenção ao que está dizendo e percebe que não tem sentido algum... RUBENS ...na verdade não sei porque estou perguntando isso pra uma mulher que eu nunca vi antes e que eu nem sei quem é, isso é ridículo, perdoe-me senhora eu vou deixá-la em paz... Chacoalha a cabeça, chapado. MULHER Eu sou de Prudente, delegado... RUBENS Ow...

(CONTINUA...)

...CONTINUANDO:

32.

MULHER Nasci, cresci e me casei lá, me mudei pra cá meu filho tinha só 6 meses de idade... Ele cresceu e inventou que quer fazer música, uns amigos disseram que tem uma faculdade legal de produção musical lá e ele acabou indo na deles e foi também, agora me dá prejuízo, se eu tiro da faculdade, sou a vilã, a injusta... Filho é um negócio complicado senhor delegado. RUBENS A senhora é viúva, deve ser complicado criar o filho sozinha... MULHER Como o senhor sabe que eu sou viúva? RUBENS A senhora disse no telefone que os amigos do seu filho foram no velório do pai dele... MULHER Verdade... RUBENS Me desculpe, não perguntei seu nome... Senhora... MULHER Carla Cavalcanti, senhor. RUBENS Obrigado. Dona Carla será que a senhora não teria algo, digamos, peculiar sobre sua cidade que não se importaria em me contar? CARLA Peculiar como? RUBENS Ah... não sei... não posso dar detalhes. Mas a investigação é criminal. CARLA Hm...

(CONTINUA...)

...CONTINUANDO:

33.

RUBENS Não existe nenhum caso de lenda urbana em Prudente? Algum caso, assim, que chamou a atenção, coisa parecida... CARLA A senhor delegado acho que não vou poder ajudá-lo. RUBENS Perfeitamente. Por favor não se preocupe... CARLA Que eu me lembre uma jornalista foi morta lá uma vez, acharam o corpo dela na beira do balneário foi horrível, também lembro de um motorista de Perua Escolar que abusava de uma garota com Síndrome de Down... RUBENS Uhum... CARLA Ah! Muito tempo atrás teve um crime que ficou famoso lá. Foi o "Crime da Mala", um médico foi fazê um aborto numa mulher, não deu certo e a mulher morreu, pois ele esquartejô o corpo dela e guardô os pedaços numa mala! Risadas. CARLA A mala tá até hoje em exposição lá! RUBENS Eu hein... Bom, isso até parece uma lenda urbana... Mas acho que não vai me ajudar... hehehe... CARLA Hm... Quando eu era criança tinha uma menina deficiente na minha sala na escola... todo mundo tinha medo dela e achávamos que ela era um monstro, coisa de 5ª série sabe... uma vez ela matou o cachorro duma amiga nossa, meteu uma faca no bichinho... Também pudera, seo Delegado, a gente escrachava ela todo dia durante (MAIS...) (CONTINUA...)

...CONTINUANDO:

34.

CARLA (...cont.) cinco anos, até que na oitava série ela abandonou, mudou de escola, sei lá... mas a morte do cachorro acabou aumentando ainda mais aquela história de monstro sabe, parece que o pai da Carolina chegou em casa e viu o cachorro gemendo... RUBENS Carolina? CARLA Era uma amiguinha nossa, Ana Carolina, o cachorrinho era dela ela adorava ele coitada, ficou dois meses sem ir à escola... (...) É isso... essa é a única mais ou menos lenda urbana que eu conheci, quando era criança. Nada de importante... (...) Uma amiga minha morreu antes de ontem, ela era de Prudente também... Rubens olha atento para a mulher. Ela percebe sua surpresa e também se assusta. CARLA Tem alguma coisa a ver com a Karina? RUBENS Não sei porque vim falá isso com a senhora, não tem nada a ver... CARLA Eu sei porque... Rubens olha para ela, envergonhado. RUBENS Médica, né? CARLA Uhum... O celular de Rubens toca, ele olha a identificação, é sua mulher. RUBENS Muito obrigado senhora, preciso atender. Bom dia...

(CONTINUA...)

...CONTINUANDO:

35.

CARLA Igualmente, delegado. RUBENS (ao celular) Oi amor! (...) Não, não dá pra ligá o vídeo agora tô saindo do restaurante vô entra no carro e vô lá pro IML, esse caso tá me tomando todo o tempo... Vemos ele pagando a conta com o cartão, digitando a senha e pegando o recibo... RUBENS Calma, eu não vô perdê seu aniversario trabalhando, já falei, eu vô dá um jeito (...) Tá com saudade?! Ô meu Deus, eu também tô querida, tsc. Quando você chegá nós vamos comemorar, fazer uma festinha só nós. Hm. Tá bom? (...) Também te amo! Te amo muito! Uma semana só hein...é...(...) Beijo... Tchau. Ele sai pela porta do restaurante. 46

EXT./DIA - CALÇADA

46

Em frente ao restaurante. Rubens vai até seu carro, entra. 47

INT./DIA - VIATURA

47

Rubens olha-se pelo retrovisor. RUBENS (ironizando-se) "A senhora, por ter o filho estudando lá, já deve saber algo a mais do que eu, talvez..." (...) Enche o cú de maconha e fala merda!!! Rindo, ele liga o carro e sai de cena. CORTA PARA:

36. 48

EXT./DIA - CALÇADA DO IML

48

O carro de Rubens encosta, descem ele e Marli. Os dois entram no IML. 49

INT./DIA - INSTITUTO MÉDICO LEGAL

49

O médico legista conversa com o delegado. MÉDICO Seu palpite estava certo senhor. As três balas saíram da mesma arma... MARLI (entrando na sala) Já mandei acelerar a procura... RUBENS Obrigado doutor. MÉDICO Disponha senhor delegado. Eles saem da sala e vão caminhando pelos corredores até a saída do IML. A câmera capta os dois de frente. MARLI Muito bem Sherlock. Agora só falta ganhar na Mega Sena. RUBENS É... agora demora um século até achar a arma... MARLI Depende... se for de policial acha rápido... RUBENS Você não disse que a arma é de uso exclusivo? Então como ela pode "não ser" de um policial? MARLI Deve ser arma da bandidagem ué... roubada, pode ter vindo do Paraguai, Bolívia... RUBENS É... bom... tomara que não, né! MARLI Tava pensando sobre o porquê desse cara tá fazendo isso...

(CONTINUA...)

...CONTINUANDO:

37.

RUBENS E você concluiu que...? MARLI E se tiver alguma mensagem? Se o cara quiser mesmo dizer alguma coisa sabe... coisa de filme... RUBENS Hehehe. Se tiver uma mensagem, pode ser sobre algo que aconteceu em Presidente Prudente, muito tempo atrás... MARLI Por quê? 50

EXT./DIA - EM FRENTE AO IML

50

Eles abrem a porta e saem do instituto, páram na entrada e continuam conversando, Marli acende um cigarro. RUBENS Bom. Até agora todas são de lá. Imagino que algo aconteceu quando todas ainda moravam por lá, e aí o cara tá tipo se vingando delas sabe? MARLI Uhum... mas porque que ele mata as crianças? RUBENS Então. Acho que ele fez questão de causar a maior desgraça possível na vida dessas mulheres, antes de matar, ele queria torturar, queria que elas sofressem de verdade, por isso ele matou os filhos. MARLI O cara é muito lôco mesmo... RUBENS Ou tem muita raiva. MARLI Claro que ele tem muita raiva! Junta muita raiva com um cara muito lôco e dá merda... que tipo de gente normal faz isso? Vão andando até a viatura.

(CONTINUA...)

...CONTINUANDO:

38.

RUBENS Gente normal igual os moleques dos Estados Unidos que vão pra escola direitinho, pra igreja, fazem as lições e dormem cedo. Aí de repente um começa a jogá CS no computador, daí ele pega uma arma e vai pra escola matá quem ele vê pela frente... gente normal assim... Há! MARLI Aí todo mundo acha que é por causa do jogo... RUBENS Lógico. O moleque é normal. A culpa é do jogo. MARLI Aí proíbem o jogo. E a proibição só tem um efeito: mais gente jogando. RUBENS É marketing. Prestes a entrarem no carro. RUBENS Mas o que isso tudo tem a ver com a gente? Os dois riem, entram no carro e saem de cena. CORTA PARA: 51

INT./MADRUGADA - APARTAMENTO DE RUBENS

51

Ele observa o mural com as fotos das três vítimas numa linha do tempo, onde e como ocorreram os assassinatos, todos os detalhes recolhidos. Suspira frustrado, pega o frasco azul de cima do sofá onde estava encostado, toma uma pílula e sai de cena. CORTA PARA: 52

EXT./DIA - CALÇADA

52

Legenda: Sete dias para o aniversário Close numa banca de DVD’s piratas com vários títulos nacionais de sucesso como Tropa de Elite, Meu Nome Não é Johnny, Jogo de Cena, Última Parada 174, etc. Uma faixa pendurada na bancada diz: "DVDilson - 5 por 10". (CONTINUA...)

...CONTINUANDO:

39.

Na parede ao fundo um desenho em grafite de um demônio, do lado a frase: "Cuidado com o cão". Giramos rapidamente para a direita e vemos o delegado Rubens caminhando na calçada vindo em nossa direção, antes de chegar ele vira-se para a esquerda e começa a subir uma escadaria, então vemos que ele está entrando na delegacia de Polícia Civil. CORTA PARA: 53

INT./DIA - ESCRITÓRIO DE RUBENS

53

Ele abre o frasco vermelho e pega uma pílula, joga-a para o alto e ela cai em sua boca. Close no frasco, é Anfetamina. Folheia um jornal com uma manchete sensacionalista sobre os crimes. Subitamente um investigador abre a porta, o delegado se assusta. RUBENS (grita) Wow! INVESTIGADOR Desculpe senhor. Descobrimos a arma! RUBENS É nada!!! CORTA PARA: 54

INT./DIA - LABORATÓRIO

54

O investigador mostra ao delegado as impressões da bala numa tela de computador. INVESTIGADOR Encontramos rápido porque a arma pertence a um policial, José Carlos Pires, que mora em Presidente Prudente - SP, a mesma cidade das moças por acaso... Ele olha para trás e vê que já está sozinho; o delegado saiu rapidamente pela porta que ainda se fechava. CORTA PARA:

40.

55

INT./DIA - DELEGACIA

55

Vemos a porta do escritório com a inscrição: "JÚLIO MESQUITA Delegado Geral". Rubens abre a porta, o delegado o recebe, fecha a porta. 56

INT./DIA - ESCRITÓRIO DO DELEGADO GERAL

56

RUBENS Senhor, temos 3 fitas de amarrar cabelo iguais e as três balas saíram da mesma arma, as três vítimas são de Presidente Prudente e a arma é de Presidente Prudente... Júlio pega o telefone. JÚLIO Tá bom Rubens, cê já tá achando que o Jack Estripador chegô em Sampa hahá! Vô ligá pra seccional de lá... vê se eles arrumam alguém... RUBENS Não senhor... num vira... vão arrumá um cara que não sabe nada do caso, o cara não vai se dedicar... não vai levar a sério, "esse povo de São Paulo acha que manda em todo mundo e agora eu tenho que me fudê aqui..." eu sei delegado... conheço o povo de Prudente... minha mulher é... Rubens fica paralisado por alguns segundos, o delegado geral põe o telefone de volta no gancho. JÚLIO Sua mulher é...? (...) RUBENS De Prudente senhor... A Valéria era amiga de infância da Fernanda. Só que eu não contei nada pra ela, vô esperá ela chegá da Argentina. JÚLIO Hm... (...) O que você quer Rubens?

(CONTINUA...)

...CONTINUANDO:

41.

RUBENS Quero ir pra lá senhor. JÚLIO Por quê? RUBENS Pra acelerá as coisa, resolvê isso rápido, voltá logo pra cá e prendê o cara. Se eu tivé lá as coisa vão funcioná bem melhor. O que que engorda a boiada? JÚLIO E quem é que vai segurá as coisa aqui? RUBENS A Marli fica no meu lugar, já falei pra ela organizá um grupo pra investigar por aqui... JÚLIO Então vai ué... Mais eu quero ver resultado hein! Daqui a pouco já tô mandano repórter tomá no cú ao vivo... CORTA PARA: 57

INT./DIA - ESCRITÓRIO DE RUBENS

57

Rubens entra em sua sala e começa e separar algumas coisas, papéis, utensílos, quando seu celular toca, ele olha para o visor e atende. RUBENS Marli! Cê não sabe, o dono da arma era policial por isso saiu a identificação rápidinho e o cara é de Prudente acredita? Eu vô pega um avião pra lá hoje mesmo e... Ahn? (...) Onde você tá? Aqui memo? Aonde? Tô indo aí! CORTA PARA: 58

INT./SALA DE INTERROGATÓRIO

58

Rubens e Marli observam o suspeito Rogério Freire, negro e magro, através daquela típica janela de vidro que é um espelho do outro lado.

(CONTINUA...)

...CONTINUANDO:

42.

MARLI O cara tava dentro da casa, ajoelhado no canto do quarto chorando igual uma criança olhando pros corpos... RUBENS Corpos de quem? Marli entrega a Rubens uma pasta com fotos e anotações sobre o mais novo assassinato. O nome da vítima é Carla Cavalcanti e seu filho de 19 anos, Rubens surpreende-se. As fotos revelam que a cena tem exatamente as mesmas características das outras. Enquanto ele olha, Marli continua. MARLI Segundo a versão dele ele entrou na casa pra roubar e fumá crack. Tava com um 22 com 2 balas, não deu nenhum tiro, quando entrou no quarto e viu a cena, entrou em choque e chamou a polícia. Acredita? RUBENS Meu Deus Marli... MARLI O que foi? RUBENS Eu conheci ela ontem por acaso num restaurante, e ela tava conversando com o filho dela no celular, ele tava estudando em Prudente, bateu o carro e ligou pra ela... CARLA (OFF) Você é uma criança que acha que sabe das coisas isso que você é!!! MARLI É nada... RUBENS Ela gritou com ele, deu a maior bronca... e disse que só pagava o conserto se ele viesse pra cá urgente...

(CONTINUA...)

...CONTINUANDO:

43.

MARLI Então ele chegou em tempo de morrer... Imagina o arrependimento que ela sentiu de ter mandado ele vir... Rubens olha para a foto de Valéria na ficha. Um grito feminino assustador cresce rapidamente e ouvimos um tiro. O delegado chacoalha a cabeça. RUBENS Fitinha de cabelo? MARLI Não... Mas o resto é tudo igual. RUBENS Tudo igual... MARLI Pois é... parece que temos um novo maníaco na praça... RUBENS Quando isso aconteceu? MARLI A pouco tempo... RUBENS E porque eu não fui informado? MARLI Foi lá em Barueri... A porta se abre e entra uma policial jovem, linda, ruiva com cabelos curtos, blusinha baby-look preta mostrando a barriguinha, seios siliconados. MARLI Marina é o seguinte... se ele fez alguma coisa... ele vai falá... MARINA Sim senhora. Os dois saem e deixam-na sozinha, com o suspeito. Ao saírem pela porta olham para Marina e o prisioneiro, depois olham-se. Vemos agora, pela porta, Marina de costas olhando para o espelho mágico, ela dá um tapa no bumbum e enfia as mãos no bolso traseiro, a porta se fecha. CORTA PARA:

44. 59

EXT./DIA - LANCHONETE EM FRENTE À DELEGACIA

59

Horário de almoço, movimentação na lanchonete. Rubens e Marli atravessam a rua e entram no restaurante. 60

INT./DIA - LANCHONETE

60

Comidas no balcão de self-service. Os dois pegam os pratos e servem-se. RUBENS Porquê você sempre manda essa Marina pra interrogá os maluco? MARLI Quando ela entra na sala o cara já sente um alívio, ela é gostosona, bonitona... O cara pensa que ela vai fazê qualquer coisa, menos o que ela faz. Rubens ri disfarçadamente. MARLI Aí quando ela começa a quebrar os dedo do cara ele apavora né... Canta igual canarinho. Rubens ri em voz alta. 61

INT. - SALA FECHADA

61

Vemos um relógio pendurado na parede marcando 12:30. Os ponteiros mudam para 14:55, agora vemos que estamos de volta à sala do suspeito Rogério. Vemos Rogério espancado, nariz, boca e olhos ensangüentados, mamilos queimados pela máquina de choque e uma poça de urina no chão. ZOOM OUT e percebemos o espelho mágico. Marina entra em cena enxugando as mãos com uma toalha preta. MARINA Ele não teve nada a ver com aquilo, senhora. MARLI Obrigada querida. Já saindo da sala. (CONTINUA...)

...CONTINUANDO:

45.

RUBENS Fita errada, lugar errado, hora errada... MARLI Pois é... CORTA PARA: 62

INT./DIA - ESCRITÓRIO DE RUBENS

62

Ele fala com a esposa ao celular no viva-voz, terminando de arrumar as coisas. Close rápido no celular em cima da mesa. RUBENS Amor vô viaja também, pego um avião hoje à noite. FERNANDA Aé? Pra onde? RUBENS Adivinha? FERNANDA Pra Prudente? Hahaha RUBENS Pois é... FERNANDA Hum? RUBENS É pra lá que eu vou... FERNANDA Fazer o quê? Rubens pega o frasco vermelho. Guarda-o no bolso. RUBENS Não a... a investigação... acabei que tenho que viajar hoje a noite, falar com umas pessoas lá... FERNANDA Que legal... passa na casa da mamãe... dá um presentinho pra fazê as pazes, hehehe. RUBENS Vô passar sim...

(CONTINUA...)

...CONTINUANDO:

46.

FERNANDA Cuidado amor; mas, porque você tem que entrevistar pessoas em Prudente, não podia telefoná? RUBENS Não tenho certeza... espero descobrir alguma coisa... FERNANDA Hm... cuidado então hein... Ah! Você volta quando? Daqui uma semana eu chego você vai tá em casa né? É meu aniversário! RUBENS Farei o possível lindona... mas não posso prometer... FERNANDA Ah não amor, era só o que faltava... RUBENS Eu sei.... acontece que o negócio tá sério, o "delegageral" tá no meu pé, a imprensa tá no pé dele aí ele descarrega em mim hehe... se cuida você aí também, eu vô dá um jeito aqui, tô com saudades, muita saudade... FERNANDA Tsc. Eu também amor... vô desligá agora a Lúcia já tá me chamando... RUBENS Tá bom então, beijo linda... FERNANDA Beijo amor... RUBENS Tchau... CORTA PARA: 63

INT./DIA - SALA DE AULA

63

Julia faz exercícios no caderno, sala em silêncio. A professora lê algo também em silêncio.

(CONTINUA...)

...CONTINUANDO:

47.

JULIA Professora acabei. A professora finge que não ouve. JULIA Professora, acabei! PROFESSORA Traz aqui. A professora olha um segundo para o caderno de Julia e rasga a folha, amassa e joga fora. PROFESSORA Tá errado. Faz tudo de novo. A classe ri de Julia, que está visivelmente decepcionada e abalada. A professora esboça em pequeno sorriso quando a sala caçoa de Julia. A menina volta ao seu lugar, cabisbaixa. Um grupo de meninas bonitas e "patricinhas" conversam e riem em voz baixa. MENINA 1 Afe! Até a professora dá risada da Julia. MENINA 2 Também uma assombração dessa... Mais risadas. CORTE RÁPIDO PARA: 64

INT./DIA - BANHEIRO DA ESCOLA

64

As mesmas meninas do grupo das bonitinhas conversam e riem em frente ao espelho, maquiando-se. MENINA 2 Até minha Vó tira um sarro se dexá... MENINA 3 Até os cachorro corre atrás dela na rua se dexá! Gargalhadas. Vemos através do espelho que uma das portas das cabines atrás das meninas se abre e sai Julia. (CONTINUA...)

...CONTINUANDO:

48.

As meninas a vêem pelo espelho. Vemos o olho cego de Julia, realmente feio. Imediatamente todas as meninas gritam histericamente e saem correndo do banheiro deixando Julia sozinha. Ela fica imóvel por alguns segundos, depois volta para dentro da cabine, fecha a porta e chora em silêncio. CORTA PARA: 65

INT-EXT/DIA - VIATURA

65

PO.V. de Rubens dentro da viatura no banco do passageiro, vemos o letreiro em pedra branca: "PRESIDENTE PRUDENTE" na beira da rodovia. 66

EXT./DIA - CRISTO REDENTOR DE PRESIDENTE PRUDENTE

66

Vemos o pequeno Cristo Redentor da cidade, giramos para a direita e vemos a viatura vindo rapidamente em nossa direção. CORTE RÁPIDO PARA: 67

INT-EXT./DIA - VIATURA

67

Um policial dirige, o delegado lê um mapa da cidade e localiza a rua onde mora o policial José Carlos. Marca com uma caneta. RUBENS Aqui... Legenda: Seis dias para o aniversário POLICIAL Eu ouvi falar que o senhor ia chegar ainda de madrugada... RUBENS Eu também. Se o vôo não tivesse atrasado... CORTA PARA: 68

EXT./DIA - RUA DA CASA DE JOSÉ CARLOS

68

Estamos em frente à casa de Seo José.

(CONTINUA...)

...CONTINUANDO:

49.

Ela está à esquerda, vemos a rua indo longe adiante. Um carro aproxima-se, ele vai crescendo e identificamos uma viatura, ela pára em frente à casa e Rubens desce, checa o endereço e toca a campainha. Um rapaz o atende, Rubens o reconhece. CORTE RÁPIDO PARA: 69

EXT./DIA - SEMÁFORO AO LADO DE UMA PRAÇA

69

Tiro da cena 37. O rapaz encara Rubens sentado no banco da praça. 70

EXT./DIA - CASA DE JOSÉ CARLOS (DE VOLTA) RUBENS Boa tarde... RAPAZ Boa tarde... RUBENS Essa é a casa do Sr. José Carlos Pires? RAPAZ Sim, é meu pai. RUBENS Ele está? RAPAZ Não, tá internado... operou da vesícula... RUBENS Hm... Meu nome é Delegado Rubens, se não fosse incômodo, gostaria de conversar um pouco com o senhor... pode ser? RAPAZ Pode sim, entre. RUBENS Seu pai foi policial, não foi, senhor...? RAPAZ Rodrigo.

70

50.

71

INT./DIA - CASA DO RODRIGO

71

Os dois entram na casa conversando, ouvimos uma música heavy metal. Casa de classe média alta. Rodrigo começa a ficar nervoso e Rubens percebe. RUBENS Senhor Rodrigo, policial militar né? RODRIGO Isso, se aposentou já faz mais de cinco anos... Rubens repara em algumas malas de viagem. RUBENS O senhor vai viajar? Rodrigo vai até o aparelho de som e desliga-o, vemos vários cd’s de heavy metal. RODRIGO Não, não. Acabei de chegar de Campo Mourão na verdade. RUBENS Hm... Passeio? Compras? RODRIGO Não, trabalho... RUBENS Que tipo de trabalho o senhor faz? RODRIGO Sou designer de ambientes. Por acaso estou sendo interrogado? O delegado repara em apetrechos utilizados para o consumo de maconha em cima de uma mesa. RUBENS Não, imagine. RODRIGO Então porque exatamente o senhor está aqui? RUBENS Para falar com seu pai. RODRIGO Meu pai não está! O que o senhor delegado quer com ele? Ele já tá (MAIS...) (CONTINUA...)

...CONTINUANDO:

51.

RODRIGO (...cont.) velho, abandonou esses assunto de polícia já faz tempo... RUBENS Só queria perguntar umas coisinhas pra ele... RODRIGO Que coisinhas? RUBENS Ah, coisas do tipo... se ele ainda tem uma arma... Rodrigo fica paralisado e Rubens encara-o. Após balbuciar ele responde: RODRIGO Ele tinha, mas roubaram a mais de um ano já? RUBENS Roubaram... RODRIGO Uhum... Bom, senhor delegado acho que não vou poder ajudá-lo e meu pai definitivamente também não pode... então se o senhor não se incomodar, eu tenho um monte de coisas pra fazer tenho... tenho.... tenho que desfazer as malas... tenho.... que arrumar a casa... tenho.... enfim, eu estou ocupado agora. RUBENS Naturalmente, muito obrigado senhor Rodrigo. Rodrigo observa o delegado ir embora. CORTA PARA: 72

INT./DIA - QUARTO DO HOTEL

72

Com Marli no telefone. RUBENS Adivinha? MARLI O quê?

(CONTINUA...)

...CONTINUANDO:

52.

RUBENS Tá mentindo! MARLI É nada! (...) Quem tá mentindo? RUBENS Hehehe! O Rodrigo... MARLI Rodrigo? RUBENS Filho do dono da arma. Eu vi ele aí em Sampa, e ele falô que tinha ido pra Campo Mourão. (...) MARLI E o pai dele? RUBENS Tá internado! MARLI É nada... RUBENS Hehehe... MARLI E aí o que você acha? RUBENS Tô tentando num achá nada ainda. Vô conversá com o pai dele no hospital... vê se arranco mais alguma coisa.... dependendo da situação, eu peço um mandado pra pega o Rodrigo... MARLI Bom... as quatro estudaram na mesma escola desde a 4ª série... depois cada uma seguiu seu rumo, e só... RUBENS É a única ligação entre elas? MARLI É. (...)

(CONTINUA...)

...CONTINUANDO:

53.

RUBENS Qual escola? MARLI Foi demolida já, no lugar construíram uma clínica, Escola Machado de Assis. RUBENS Hm... vê se você acha mais alguém ligado à escola... pode ser útil... MARLI Tudo bem. Que mais? RUBENS Dependendo do que o pai dele falá... MARLI Eu agilizo o mandado aqui pra você... RUBENS Demorô então... Beleza, vou ver se hoje à noite vou no hospital... Se cuida aí, tchau. MARLI Tchau. CORTA PARA: 73

INT./NOITE - RECEPÇÃO DO HOSPITAL

73

Simone é uma recepcionista inacreditavelmente linda e gostosa, morena de olhos azuis, com um decote que realça seus dotes de silicone. Rubens chega e mostra sua identificação, ela hesita em deixá-lo entrar. SIMONE Senhor, já é quase meia noite, o horário de visitas é até as nove. RUBENS Querida, isso não é uma visita, eu sou policial e quero fazer algumas perguntas pro Seo José, só isso. SIMONE Sinto muito senhor, nesse caso o senhor precisa de um mandado para entrar... (CONTINUA...)

...CONTINUANDO:

54.

RUBENS (nervoso) Eu preciso é de um... Rubens hesita, balbucia alguma coisa e depois desiste. RUBENS Tudo bem mocinha, me desculpe, você faz seu trabalho muito bem, aliás não sei como uma beldade como você trabalha como recepcionista de um hospital na madrugada, você devia estar em Paris, nas passarelas; vou embora agora, amanhã volto no horário certo. SIMONE (sorrindo) Ok senhor, obrigada, não se preocupe. RUBENS Tchau... Ele deixa o hospital observado pela recepcionista. Chacoalha a cabeça para se recompor após aquela visão. Ouvimos as primeiras notas da música "Bullwinkle Part II" da banda "The Centurians". CORTA PARA: 74

INT./MADRUGADA - QUARTO DO HOTEL

74

Na TV o filme Pulp Fiction na cena em que Vincent Vega injeta heroína; ouvimos a mesma música da cena. Tiros de Rubens e da cena de Vincent na TV são intercalados. Rubens está esparramado no sofá; coloca a maconha dentro do triturador em formato de bola com um símbolo do BOPE, gira-o algumas vezes, despeja o conteúdo sobre a seda e começa e enrolar seu baseado, close nos movimentos das mãos em câmera lenta, ele bola, passa a goma, pila, acende, fuma, relaxa, solta bolinhas de fumaça, ri... Seu celular começa a brilhar no sofá ao seu lado, está tocando, porém não ouvimos nada, vemos a foto de sua esposa na tela do aparelho. Despretensiosamente ele olha para o lado e vê o aparelho aceso, TIRO close bem perto do aparelho e então ouvimos o som estridente do toque. (CONTINUA...)

...CONTINUANDO:

55.

Rubens assusta-se, derruba o baseado no chão, pega-o de volta e pausa o filme para atender o celular. RUBENS Oi linda! FERNANDA Oooi garotão! RUBENS Eaí amor! Tudo bem? FERNANDA Tudo ótimo! E você? RUBENS Devagar... FERNANDA Onde você tá? RUBENS Num quarto do Aruá Hotel. FERNANDA Nossa! Já tá em Prudente! E aí já foi na mamãe? RUBENS Ainda não tive tempo. Aliás, o que você acha que eu devo levar pra ela? FERNANDA Ah amor, seja criativo! RUBENS Me ajuda! FERNANDA Ah sei lá... um carro zero... HAHAHAHA! RUBENS Deixa queto... e aí como tá? FERNANDA Tá começando a encher o saco já, seis horas por dia num anfiteatro ninguém agüenta... RUBENS Calma... você já viu coisa pior...

(CONTINUA...)

...CONTINUANDO:

56.

FERNANDA Já mesmo... Rubens dá um trago no baseado e Fernanda vê pelo vídeo: FERNANDA Que inveja! Queimando um sossegado... hehehe Ele responde ainda segurando a fumaça: RUBENS Quem pode pode né querida... FERNANDA Sei... e aí como vão as investigações? RUBENS (soltando a fumaça) Lento... muito lento... FERNANDA Então vê se acelera pra chegar antes do meu niver! RUBENS Tô tentando amor... Também se não der tempo eu mando alguém vir pra cá e vou embora pra São Paulo... FERNANDA Te amo tanto amor... RUBENS Você não sabe da maior... FERNANDA Qual? RUBENS Eu te amo mais ainda! FERNANDA Mentira! RUBENS Verdade! Risadas. RUBENS Volta logo moça, desencana desse congresso ae, você é traumatologista do Hospital das Clínicas, num precisa de porra de congresso nenhum...

(CONTINUA...)

...CONTINUANDO:

57.

FERNANDA Ah amor, se eu pudesse... RUBENS Você pode... FERNANDA Enfim... O que você vai me dar de presente? RUBENS Surpresa... FERNANDA Ah!!! Não faz isso comigo! RUBENS Agora você se fudeu! FERNANDA Maldito! Não sei porque eu ainda pergunto essas coisas... Ah vai amor, fala! RUBENS HAHAHA!!! FERNANDA Tsc... RUBENS Calma amor, você vai gostar... FERNANDA Acho bom, se você me deixar toda entusiasmada e depois aparecer com blusinha ou calcinha eu te encho de porrada. RUBENS Enche naaaada.... FERNANDA Encho sim! RUBENS Você é linda sabia... Eles se olham pela tela do celular em silêncio. RUBENS Te amo Fer... FERNANDA Também te amo amor...

(CONTINUA...)

...CONTINUANDO:

58.

RUBENS Agora vai durmi. Aliás, porque me ligô essa hora? FERNANDA Insônia. RUBENS Vish! Você levou seu remédio? FERNANDA Aham, acabei de tomar e te liguei. Aliás, falá em remédio... RUBENS (ao mesmo tempo) Tá bom... Tá bom... Tá bom... FERNANDA É? RUBENS Tá bom. Não vô ficá tomano remédio... FERNANDA Já sabe né... RUBENS Podexá... Tá, então agora vai durmi que eu vô também. FERNANDA Tá bom amor... beijão! RUBENS Beeeijo linda... Tchau! CORTA PARA: 75

INT./MANHÃ - QUARTO DE HOTEL

75

Legenda: Cinco dias para o aniversário Rubens ainda dorme esparramado no sofá, na TV o menu do DVD Pulp Fiction que ficou ligado a noite inteira. Seu celular o acorda, ele olha o relógio, 09h32, está atrasado; não reconhece o número na bina e atende. RUBENS Alô? VOZ Delegado Rubens?

(CONTINUA...)

...CONTINUANDO:

59.

RUBENS Sou eu. VOZ Aqui é o Investigador Barbosa daqui de Prudente. Rubens pega o frasco vermelho. RUBENS Oi... BARBOSA Eu estou aqui numa casa e... Abre-o. RUBENS E...? BARBOSA O senhor pode vir até aqui? Rubens fica parado. CORTA PARA: 76

INT./DIA - CASA DE CLASSE MÉDIA

76

Rubens adentra o local. Uma cena igual às outras de SP, mãe e filha mortas, dessa vez a criança era uma menina, o investigador detalha, um homem levemente acima do peso, moreno. BARBOSA O delegado me falou que o senhor veio de São Paulo pra investigá uns crimes parecidos com este, daí ele mandou chamar o senhor aqui... O marido trabalha como vigia noturno, chegou de manhã e viu a cena daí chamou a polícia; ninguém mexeu em nada, parece que as cenas dos crimes são semelhantes... RUBENS É... mais eu não imaginava que (...) minha nossa... BARBOSA Uhum...

(CONTINUA...)

...CONTINUANDO:

60.

RUBENS Algum problema, policial? BARBOSA Não senhor. Essa é Ana Carolina de Oliveira Sales, era enfermeira... RUBENS Qual o nome da menina? O investigador lê na prancheta de anotações. BARBOSA Micaela de Oliveira Sales. Rubens observa a cena por alguns segundos. RUBENS Quantos anos ela tinha? BARBOSA 12... O senhor acredita? RUBENS Não não. A mãe. BARBOSA Ah... 30 anos. Ana Carolina está caída no chão com as cochas à mostra. Dona de um belíssimo corpo. Os médicos no local olham para as pernas de Ana e depois olham-se e fazem aquele típico gesto de confirmação, concordando que a vítima era tremendamente gostosa. Rubens olha indignado a atitude dos médicos e sai de cena. CORTA PARA: 77

INT./DIA - DELEGACIA

77

Com Marli ao telefone. RUBENS Agora fudeu. Não. Agora fudeu Marli! O cara veio matá aqui em Prudente agora! Então ele tá me seguindo? Então o cara sabe queu tô atrás dele e eu não sei... MARLI Calma Rubinho... Que que você vai fazê?

(CONTINUA...)

...CONTINUANDO:

61.

RUBENS Ué! Quiqui eu vô fazê... Trampá feito loco ué, não vou nem dormí! Enquanto eu tava dormino ontem ele matou mais duas! Filho da puta! Tsc! Vou pro hospital daqui a pouco, se o pai daquele moleque não confirmar a história dele... MARLI O problema nem é esse... RUBENS Qual é o mais novo apavoro então? MARLI O Mesquita! Tá ficando lôco já, tá difícil de levar ele na conversa, ele tá querendo montá uma força tarefa com um promotor já... RUBENS Faz o seguinte Marli, fala pra ele í tomá bem no meio daquele cú gordo infestado de verme que ele tem... Marli fica em silêncio. Rubens se recompõe. RUBENS Esse cara é perigoso Marli, se eu não conseguir achar ele, outro vai ter que achar senão ele vai virá o Jack Estripador brasileiro... Num dá... E minha mulher vai chegá de viagem, é aniversário dela... Ah! E não tinha nenhuma fitinha de cabelo nessa também. MARLI Como você sabe que é só um cara? E ser for mais de um, cada um numa cidade... RUBENS Ah não! Num vem pirá mais ainda minha cabeça agora não... MARLI Tudo bem. Vô vê se eu falo com o Mesquita...

(CONTINUA...)

...CONTINUANDO:

62.

RUBENS Brigadão Marli, tô indo pro hospital falá com o José Carlos... Tchau. MARLI Tchau Rubinho... CORTA PARA: 78

INT./DIA - BANHEIRO DA ESCOLA

78

Rodrigo entra no banheiro apressado e tira a bermuda aflito, senta no vaso sanitário e alivia-se. Rapazes entram no banheiro e Rodrigo fica em silêncio. Um dos rapazes repara nos pés com as calças no tornozelo por debaixo da porta. Entram nas cabines ao lado, sobem nos vasos sanitários e conseguem assim ver Rodrigo sentado; tiram sarro do garoto que chora de nervoso. CORTA PARA: 79

INT./DIA - HOSPITAL

79

Rubens retorna ao hospital. Agora o recepcionista é um rapaz, seu crachá identifica-o como Jorge, o saguão está movimentado. RUBENS Jorge... A Simone não veio hoje? JORGE Ela faz o turno da madrugada senhor. Ao ouvirmos Jorge falar, percebemos que ele é homosexual. RUBENS Hm... vim visitar o paciente José Carlos Pires, foi operado da vesícula. JORGE Qual quarto senhor? RUBENS Não sei...

(CONTINUA...)

...CONTINUANDO:

63.

JORGE Um momento. (...) Quarto 255, segue adiante pelo corredor e depois vira à direita. RUBENS Obrigado. Rubens segue pelo corredor e Jorge observa seu traseiro, chacoalha sua cabeça da mesma forma que o delegado fizera após conversar com Simone. CORTA PARA: 80

INT./DIA - HOSPITAL - QUARTO DE JOSÉ CARLOS PIRES

80

Seo José está deitado na cama tomando soro e assistindo TV, o delegado bate na porta e entra. RUBENS Boa tarde seo José... JOSÉ Boa... Conheço o senhor? RUBENS Delegado Rubens, de São Paulo, prazer. JOSÉ Prazer delegado, o que que tá acontecendo? RUBENS Como vai a vesícula? JOSÉ Hum! É impressionante como um pedacinho de carne do tamanho da ponta do meu dedão pode fazê um homem mijá de dor... RUBENS É... meu pai tinha pedras no rim, sofria igual um cachorro... JOSÉ Rapaz do céu... o negócio é feio demais! Mas o que o traz da capital até aqui seo delegado? RUBENS Seo José é o seguinte, sem rodeios, tem um maníaco matando mães e filhos sem parar, começou lá em Sampa e ontem já matou aqui em Prudente. (CONTINUA...)

...CONTINUANDO:

64.

JOSÉ Nossa! E aí? RUBENS Daí que as balas que mataram todo mundo saíram da sua arma. JOSÉ (estarrecido) Como? RUBENS Sua arma Seo José, aquela que foi roubada. JOSÉ Hm... Já sei. O senhor falou com meu filho e ele falô que ela foi roubada, né? RUBENS Sim. JOSÉ Foi nada, meu filho é viciado seo delegado, hoje ele ainda consegue controlar o vício para não levar as coisas da casa, mas a mais ou menos um ano ele pegô a arma e trocô numa boca, tenho certeza, ele também me diz que roubaram, mas eu fui da Narcóticos, conheço essas histórias... RUBENS Sei... Senhor José tem uma coisa ainda mais delicada nessa história. JOSÉ O quê? RUBENS Eu vi seu filho em São Paulo, poucos dias atrás... JOSÉ Em São Paulo? (...) Ele me disse que ia pra Campo Mourão ficar uns dia na casa dum amigo dele... RUBENS Hm... JOSÉ Ele é suspeito?

(CONTINUA...)

...CONTINUANDO:

65.

RUBENS Me diga o senhor... JOSÉ As balas saíram da minha arma, o senhor viu o Rodrigo em São Paulo, e ele mentiu sobre a arma... Mas que merda!!! RUBENS Calma Seo José, não temos nenhuma prova ainda, mas eu acho que vou ter que pedir prisão preventiva pro seu filho... JOSÉ Eu sabia... sabia que ia acabar nisso... a vida inteira ele foi fanático por armas, adorava jogos de sangue, sabe tudo sobre guerras... vivia depressivo... tsc! RUBENS Depressivo? JOSÉ É... ele tinha uns complexos sabe... era muito tímido e por isso não conseguia as coisas, namorada, amigos, nada, e ainda tinha uma turma na classe dele da escola que deixava ele perturbado. RUBENS Zombavam dele? JOSÉ Não, dele não. Duma menina que era defeituosa. Ele sentia pena dela, e odiava profundamente as coleguinhas que zombavam. RUBENS Eu ouvi uma história parecida, parece que a menina até matou um cachorro pra se vingá né... JOSÉ Isso mesmo! Elas maltratavam muito a coitada, até que ela não aguentou e abandonou... RUBENS Muito obrigado Seo José, vô dexá o senhor descansá um pouco agora.

(CONTINUA...)

...CONTINUANDO:

66. JOSÉ

Delegado. RUBENS Sim. JOSÉ Não machuca meu filho não... ele tem problemas sim, mas não acredito que mataria pessoas, não, isso não... RUBENS Não pretendo machucar seu filho Senhor José, se for preciso eu prendo ele, mas não vô machucá não, o senhor tem a minha palavra. JOSÉ Obrigado Delegado Rubens. RUBENS Melhoras! E até mais, Seo José. CORTA PARA: 81

INT./DIA - VIATURA

81

Dentro do carro Rubens digita uma mensagem no celular. Close: "Marli o Rodrigo ta mentindo. Arranja o mandado." Antes que ele apertasse o botão para enviar, o celular toca e Rubens leva um susto. Na tela aparece a foto de Marli. RUBENS Putz... Atende. RUBENS Como você faz isso? MARLI Faz o quê? RUBENS Nada... Eae? MARLI O Rodrigo tava mesmo aqui em Sampa, ele comprou uma passagem de ônibus, ida e volta.

(CONTINUA...)

...CONTINUANDO:

67.

RUBENS Pois é. E ele mentiu pra mim, e pro pai dele. MARLI Vô arrumá o mandado. RUBENS Falou. MARLI Tchau. CORTA PARA: 82

INT./DIA - QUARTO COM POUCA LUZ

82

Vemos os móveis e objetos jogados, é um quarto de criança. Vários closes do cômodo. Finalmente vemos Rodrigo sentado no chão, chorando. Na cama à sua frente está uma barra de chocolate. O choro de Rodrigo, antes baixo e ponderado, começa a ganhar intensidade, o pequeno menino lamenta-se profundamente. Pega um pedaço do chocolate e come, ainda chorando. Lentamente ele se acalma. CORTA PARA: 83

INT. - QUARTO ESCURO

83

Alguém de costas sentado em uma mesa, fumando, diversos materiais sobre ela, na parede à sua frente um mural com fotos e matérias de jornal sobre os assassinatos, ele recorta a mais recente, cola-a na parede. Com o cigarro ele vai até uma foto da turma de 5ª série com Julia, Rodrigo, a professora e todos os outros, nos anos 80, ele queima o rosto da mais recente vítima, Ana Carolina. Close na foto com os rostos queimados pelo cigarro. CORTA PARA:

68.

84

INT./DIA - DIRETORIA DA ESCOLA

84

A professora conversa com a diretora. PROFESSORA Eu vô falá pra ela... DIRETORA Num pode... PROFESSORA Eu vô falá... DIRETORA Não pode Lourdes, ela paga mensalidade, se a gente ficá recomendando escola especial vai falta grana. LOURDES Ah, Vanda... É só ela. Não dá. Não dá certo, eu não consigo ficá olhando praquele olho branco dela, ai credo! Eu tô errada, é preconceito, mas eu não consigo ué! VANDA É que tem mãe que não aceita que o filho precisa de escola especial, acha que não é grave assim e... LOURDES Como não é tão grave assim?!!? A menina parece um monstro! Os alunos que não zombam dela é porque têm medo... Até eu tenho medo dela de madrugada... Risadas. VANDA Mesmo assim... Não é problema de cabeça... Escola especial é pra problema de cabeça... LOURDES Tsc! Batidas na porta. VANDA Pode entrar. Entram Julia e sua mãe.

(CONTINUA...)

...CONTINUANDO:

69.

A diretora e a professora as recebem e tratam com todo o carinho. Lourdes põe Julia no colo e sorri abraçando a menina. CORTA PARA: 85

INT./DIA - DELEGACIA

85

Rubens conversa com o investigador Barbosa. RUBENS Você sabe de uma escola Machado de Assis que foi demolida? BARBOSA Sei, hoje é uma clínica de fisioterapia... RUBENS Tem alguém que trabalhava lá por aqui ainda? BARBOSA Deve ter... O senhor quer que eu descubra? RUBENS Por favor, Barbosa... BARBOSA Sem problemas, senhor. CORTA PARA: 86

EXT./DIA - CASA DE RODRIGO

86

O tempo está fechado, uma chuva forte está prestes a cair, relâmpagos e trovões. Rubens toca várias vezes a campainha da casa, mas ninguém atende. CORTA PARA: 87

EXT./DIA - EM FRENTE À CASA DA SOGRA

87

A chuva cai torrencialmente. Rubens encosta sua viatura e buzina. Vemos alguém olhando pela janela da casa. Close no trinco eletrônico do portão que se abre.

(CONTINUA...)

...CONTINUANDO:

70.

Rubens está nervoso, chacoalha os dedos, suspira, olha para a casa, definitivamente não queria estar ali. Desce correndo, abre o portão, entra e vai até a porta. 88

INT./DIA - CASA DA SOGRA

88

A porta é aberta e Rubens entra na casa de Dona Lourdes, uma senhora idosa, ranzinza e antipática. RUBENS Dona Lourdes tudo bem com a senhora? LOURDES Ai credo, tá molhando tudo meu chão!! Peraí, fica aí! Ela corre, pega uma toalha e joga nos pés de Rubens que começa a se arrumar. LOURDES Enxuga os pés aí e tira esse paletó... RUBENS Desculpa Dona Lourdes essa chuva me pegou de jeito! LOURDES Porque a Fernandinha não veio? RUBENS Ela tá em Buenos Aires ainda... LOURDES Ué e você veio pra cá porque sem ela? RUBENS Vim investigar um caso... LOURDES Esperasse ela chegar ué... de que adianta você vir e ela não? RUBENS Mas eu vim a trabalho dona Lourdes, não pra passear. LOURDES Mas devia ter esperado ela chegar ué, daí ela vinha também.

(CONTINUA...)

...CONTINUANDO:

71.

RUBENS Não dava pra esperar o delegado me mandou aqui... LOURDES Você não é o delegado? RUBENS Sou, mas esse delegado que eu falo é o delegado-geral. LOURDES Hm... então ele é mais delegado que você né? Manda mais né? RUBENS Mais ou menos... nós dois somos delegados mas a função dele é diferente da minha... LOURDES Pois é... Ele manda e você obedece! RUBENS (furioso) Dona Lourdes... LOURDES Hm? RUBENS Nada não... A Fernanda pediu pra trazer isso pra senhora. Rubens estende um pacote grande e bonito. LOURDES Hm... que chique... o que é? RUBENS Porque a senhora não abre pra ver? Ela abre o embrulho e encontra um DVD do Júlio Iglesias. LOURDES Júlio Iglesias? Pra quê um embrulho desse tamanho pra por só um DVD? RUBENS Ela achou que a senhora iria gostar...

(CONTINUA...)

...CONTINUANDO:

72.

LOURDES Achou nada! Ela pediu pra você comprar alguma coisa e você comprou isso. A Fernandinha sabe muito bem que eu gosto de Carlos Gardel e não de Júlio Iglesias... Rubens fica absolutamente desconcertado e sem saber o que falar, a velha arremata. LOURDES Tudo bem o que vale é a intenção... Toda vez que eu ouvir Júlio Iglesias vou lembrar de você agora... hehehe. Obrigada meu genro. E aí, vai embora quando? RUBENS (gaguejando) Ah, vou tentar ir rápido pra chegar antes do aniversário da Fernanda... LOURDES E por que não fala pra ela vir pra cá? Faltam cinco dias só ela podia bem vir aqui... (...) RUBENS Meu Deus dona Lourdes não tinha nem imaginado isto! Ótima idéia vou falar com ela... LOURDES É, meu querido, a dona Lourdes também pensa! Hehe. Fala com ela sim... RUBENS Vou falar sim, assim que eu chegar no hotel... LOURDES Porque não liga pra ela agora? RUBENS Acabei de ligar, tá desligado, ela deve tá no congresso ainda... LOURDES Credo já são sete e meia da noite e tem congresso ainda?

(CONTINUA...)

...CONTINUANDO:

73.

RUBENS Ela pode ter ido jantar com as amigas dela, sei lá... (...) Dona Lourdes? LOURDES Hm. RUBENS Deixa eu perguntá uma coisa pra senhora... LOURDES Pois não. RUBENS A senhora conhece uma escola que tinha aqui e que demoliram? LOURDES Machado de Assis? RUBENS Isso! LOURDES Ô se conheço. Eu era professora de lá. RUBENS A senhora? LOURDES Uhum. Foi a última escola que eu dei aula, durante 17 anos, ela acabou fechando por causa dumas falcatruas na época, eu já tava com duas ponte de safena, daí eu aposentei. RUBENS Dona Lourdes é o seguinte, o caso que eu tô investigando de certa forma envolve essa escola. LOURDES Aé? RUBENS Uhum. A senhora não se lembra de algo, digamos, incomum que aconteceu durante aquela época? LOURDES Ish faz tanto tempo... Incomum, incomum não... Em toda escola acontecem coisas fora do comum...

(CONTINUA...)

...CONTINUANDO:

74.

RUBENS Por exemplo? LOURDES Ah! Uma menina matou o cachorro duma coleginha uma vez, imagina o pai da menina chegou em casa e viu a Julia agachada olhando pro cachorro que tava gemendo, diz que o homem se borrou de medo da menina, parece que ela olhou pra ele dum jeito que ele assustou. Também feia do jeito que ela era assustava qualquer um, as crianças todas tinham medo dela... 89

EXT./NOITE - QUINTAL DE UMA CASA

89

Julia, ainda criança, está agachada de costas para nós e à sua frente algo deitado no chão emitindo gemidos baixos de agonia. VOZ MASCULINA (OFF) Mas o que é isso? Quem é você? Julia se vira e seu olho cego reflete a luz dando a impressão que está brilhando, a imagem é assustadora, ela está de joelhos e ao seu lado está um cãozinho lindo com uma faca cravada nas costelas. O homem que a observava entra em pânico e começa a gritar. CORTA PARA: 90

INT./DIA - CASA DA SOGRA

90

RUBENS Eu ouvi essa história do cachorro lá em São Paulo... LOURDES Pois é... Incomum acho que é só isso... Ah tinha o Rodrigo também. Rubens fica atento. RUBENS Rodrigo? LOURDES É. Um rapaz que tinha uns problemas mentais, parecia que (MAIS...) (CONTINUA...)

...CONTINUANDO:

75.

LOURDES (...cont.) era altista, não falava com ninguém e chorava por causa de tudo, assistia televisão, chorava, assistia aula e não entendia, chorava, e quando os amigos caçoavam dele era pior ainda; eu gostava do Rodrigo ele era um rapazinho sensível, gostava dos animais; e quando caçoavam daquela anormal da Julia ele ficava furioso, quebrava os lápis, era triste... RUBENS Então o Rodrigo estudava nessa escola? LOURDES Uhum... RUBENS Quem é Julia? LOURDES Julia é uma menina que nasceu defeituosa e cresceu malcriada, respondona e sem educação. As menininhas da sala zombavam dela todo dia... O Rodrigo detestava, mas aquela menina era ruim, gente ruim sabe... RUBENS Era uma criança, Dona Lourdes! LOURDES Uma criança ruim ué. Oh! Vem vê aqui no quarto, tenho um quadro com a foto daquela turma, bem bonito... 91

INT./DIA - QUARTO DE DONA LOURDES

91

Dezenas de quadros forram o quarto, fotos de toda a vida de Dona Lourdes. À esquerda da porta está o quadro em questão. A foto é da turma da 5ª série da Escola Machado de Assis dos anos 80, a mesma que fora queimada por um cigarro anteriormente, toda a turma sentada nas carteiras olhando para a câmera sorrindo e a professora Lourdes à sua mesa também sorrindo, logo à sua frente está a fileira das "bonitinhas", apenas dois não sorriem: Rodrigo encara a foto com frieza e Julia olha abatida para o chão, a sogra no alto dos seus trinta e tantos anos... (CONTINUA...)

...CONTINUANDO:

76.

RUBENS Posso tirar uma foto desse quadro? LOURDES Pode ué... O que foi, alguém morreu? RUBENS Não senhora, e mesmo que tivesse eu não poderia dizer, faz parte da investigação. Com o celular programado para a resolução máxima ele alinha a foto e captura a imagem. RUBENS Será que essa Julia teria algum motivo pra fazer mal a alguém? LOURDES Na época tinha, pelo tanto que maltratavam ela, pois ela não matou o cachorro da outra? Então... Hoje não, hoje ela cuida da mãe que tá com osteoporose coitada... RUBENS Mora aqui ainda? LOURDES Mora sim... perto do balneário. RUBENS Balneário... alguém me falou alguma coisa sobre um balneário daqui também... LOURDES O Balneário da Amizade. RUBENS Enfim... E esse Rodrigo? Como anda? LOURDES Ah! O Rodrigo marcou bobeira, foi mexê com esses maloqueiro aí, começou a usá droga, fumar maconha, e até roubou o Seo José o pai dele, coitado... RUBENS Conversei com o Seo José no hospital...

(CONTINUA...)

...CONTINUANDO:

77.

LOURDES Hospital? O que aconteceu? RUBENS Pedra na vesícula. LOURDES Ai! Credo! Ué mais você foi falá com ele porque? RUBENS Vi o Rodrigo lá em São Paulo, parece que ele tá encrencado. LOURDES O Rodrigo virou tranqueira! Bandido! Perdeu tudo que ele tinha de bom na infância... RUBENS Dona Lourdes eu acho que vou embora agora... LOURDES Tá cedo... RUBENS A senhora conhece mais alguém com quem eu possa conversar sobre essa escola? LOURDES Tem a Vanda diretora, tem o endereço dela aqui... Ela pega uma agenda e dá para o delegado que copia num pedacinho de papel. RUBENS Obrigado minha sogra! Vou falar com a Fernanda, ver se ela vem pra cá. LOURDES É! Fala pra ela vir sim... Fazer trinta anos longe da mãe dá azar... Rubens fica atônito. Tiros das fichas das vítimas com 30 anos. RUBENS Dona Lourdes, a Fernanda estudou nessa escola?

(CONTINUA...)

...CONTINUANDO:

78.

LOURDES Não, não... Ela estudou noutra escola, o Colégio Criarte, esse existe até hoje... RUBENS (suspirando) Hm... LOURDES Porque? RUBENS Não, não... Só pra saber... Boa noite Dona Lourdes, até depois. LOURDES Boa noite, meu genro. CORTA PARA: 92

EXT./DIA - CORREDOR DA ESCOLA

92

Julia vem andando no corredor com seus materiais. As meninas vem correndo por trás dela e gritam: MENINA Cuidado! Desvia da assombração!!! Ela finge que desvia mas esbarra em Julia que cai para o outro lado, todos os seus materiais caem no chão e são chutados e pisoteados pela meninas que passam correndo. As coisas de Julia espalham-se longe pelo corredor. Ela observa, incrédula. CORTA PARA: 93

INT./MADRUGADA - QUARTO DE HOTEL Rubens está dormindo. Uma chuva fraca cai. Seu celular começa a tocar no criado ao lado da cama, lentamente ele acorda, olha na bina e atende. RUBENS Bom dia princesa...

93

79.

94

INT./NOITE - QUARTO DE HOTEL

94

Vemos Fernanda deitada no sofá falando ao celular, as cenas dela e dele alternam-se intercaladas, não vemos o rosto dela, somente seu corpo... FERNANDA Olá amorzão! Tudo bem? 95

INT./NOITE - QUARTO DE HOTEL

95

De volta ao quarto de Rubens. RUBENS Tudo bem, tudo bem. Ô amor, 4 da manhã pô! FERNANDA Chegamo agora! Hahaha! Eu a Lúcia fomos pra balada! Hehehe! RUBENS Lindo, vai pro congresso mais fica na balada... FERNANDA Amanhã só vai começa as duas da tarde! Mas e aí? Como foi seu dia? RUBENS Tirando a visita turbulenta que eu fiz à casa da sua mãe... hehehe! FERNANDA Como assim? Como foi? RUBENS Ah cê nem sabe... comprei um DVD do Júlio Iglesias pra ela. FERNANDA Não!!! RUBENS HAHAHA Pois é! Quando ela viu fez a maior cara de desprezo, eu esqueci que ela gostava do tal do Carlos Gardel. O pior é que eu falei que você que tinha escolhido antes dela abrir... FERNANDA Vish... HAHAHA!

(CONTINUA...)

...CONTINUANDO:

80.

RUBENS Mas num dá nada não... sua mãe me deu uma idéia ótima. FERNANDA Qual? Ele caminha até a janela para ver a chuva cair. RUBENS As investigações tão caminhando bem aqui... FERNANDA Que bom! RUBENS E por isso acho que vou ficar mais uns dias. FERNANDA De jeito nenhum!!! RUBENS Calma! Deixa eu falá... porque você não desce em São Paulo e pega uma ponte pra cá? A gente passa seu niver aqui daí você vê sua mãe e ela pára de reclamar... Fernanda pensa por alguns segundos. FERNANDA Adorei a idéia! RUBENS Que bom! FERNANDA Nem tinha pensado nisso... ótima idéia... RUBENS Foi o que eu disse à sua mãe... mas e aí como está? FERNANDA Ah tá bom... hoje foi melhor, acabou mais cedo. RUBENS Ué, te liguei era umas seis e quarenta você não atendeu... FERNANDA Então, acontece que eu a Lúcia e umas amigas fomos a.... adivinha?

(CONTINUA...)

...CONTINUANDO:

81.

RUBENS Um show de blues? FERNANDA Isso!!! RUBENS Acertei? FERNANDA Uhum! Assistimos ninguém menos que o Paul Butterfield! RUBENS Nossa que inveja! O cara é bom hein... FERNANDA Nossa, maravilhoso. Só que a Lúcia não gosta muito de blues o negócio dela é "Seguuuuuuuuuuuura peão!!!" hahahaha! RUBENS Coitada... FERNANDA Pois é. RUBENS E as cachaça? FERNANDA Há! Dá só uma olhada nessa maravilha... Vô ligá o vídeo. Ela vai até o frigobar e mostra-o através do celular, várias garrafas de Heinneken. RUBENS Nossa! Aí sim! FERNANDA Quem pode pode meu querido. RUBENS A é? Então olha isso. Ele liga a luz do quarto, senta-se na cama e mostra uma pedra de maconha de cerca de 30g, encosta-a no nariz e cheira-a. FERNANDA Que inveja!!! Onde você arrumô?

(CONTINUA...)

...CONTINUANDO:

82.

RUBENS A Marli prendeu oitenta quilo lá em Sampa uns dia atrás... hehehe. FERNANDA Guarda pra mim pra quando eu chegá hein! RUBENS Não sei se vai ser possível, vô tentá... Nossa amor que saudade. FERNANDA Ai amor... RUBENS Que foi Fer? FERNANDA Nada. Também tô com saudade! RUBENS Calma jajá você chega aqui, daí eu vou mandar o Aruá preparar um quarto com isolamento acústico pra gente. Hehehe. Fernanda abre um sorriso. FERNANDA E aí o que vai me dar de presente? Rubens surpreende-se pois havia esquecido completamente. RUBENS Surpresa... FERNANDA Essa história de surpresa é coisa de quem não lembrô e tá enrolando, vi hoje na televisão... RUBENS Ah pronto... FERNANDA Hahaha. RUBENS Você é linda sabia? Fernanda dá um lindo sorriso e os dois se olham em silêncio. CORTA PARA:

83.

96

INT./DIA - VIATURA

96

Legenda: Quatro dias para o aniversário No trânsito Rubens fala ao celular. Ouvimos a voz de Marli do outro lado da linha. RUBENS Marli do céu! Me ajuda! MARLI O que foi? RUBENS Preciso comprá um presente pra minha mulher e esqueci completamente! MARLI Hahaha! RUBENS Não ri, é sério! Se eu esquecer do presente dela, nossa... MARLI Tá. Quantos anos ela vai fazer? RUBENS Trinta. Alguns segundos de silêncio. RUBENS É eu sei que é a mesma idade das finadas, mas num dá nada não, ela vai chegar aí em Sampa e vem direto pra cá passá o niver aqui... tá tudo certo. MARLI Tá bom. E você quer que eu te ajude a escolher? RUBENS Não! Quero que você escolha e compre o presente aí, me manda por sedex e me diz exatamente o que é, pra que serve e onde você comprou. MARLI Hahaha ai Rubinho você não existe!

(CONTINUA...)

...CONTINUANDO:

84.

RUBENS Faz isso hoje pra mim pelo amor de Deus, manda por sedex 10. Te mando o endereço por SMS jajá tá? MARLI Sem problema. RUBENS Você é meu anjo da guarda sabia? MARLI Uhum. RUBENS E o mandado? MARLI Depende só do juiz assiná... RUBENS Tá bom Marli, beijão. MARLI Beijo Rubinho, tchau. CORTA PARA: 97

INT./DIA - DELEGACIA

97

Rubens conversa com Barbosa. BARBOSA Senhor eu consegui descobrir algumas coisas sobre a escola. RUBENS O quê? BARBOSA Bom, parece que o dono naquela época andou superfaturando ou algum negócio assim e acabou que a escola acabou fechando. Consegui o endereço de uma diretora de lá. Vanda Meirelles. RUBENS Não diga... No computador Rubens ativa a conexão bluetooth de seu celular e mostra a foto da turma para o investigador. Close no aparelho, algo como: Bluetooth ativado.

(CONTINUA...)

...CONTINUANDO:

85.

RUBENS Olha só, consegui essa foto aqui. BARBOSA Aonde? RUBENS Na casa da minha sogra, ela que é a professora, ó ela aqui. BARBOSA Sua sogra? RUBENS Pois é! Então... Vô hoje fala com essa diretora aí, ela si pá deve saber o nome da mulecada. BARBOSA Ué sua sogra num era a professora? Ela não lembra mais os nomes? RUBENS Eu nem quis perguntar, vai que uma delas foi uma dessas que morreu aí... BARBOSA Pior... RUBENS Mesmo assim vê se você consegue achar os nomes, eu sei que esse é o Rodrigo filho do José Carlos e essa é uma tal de Julia. Barbosa você conhece esse tal de Rodrigo Pires? BARBOSA Filho do Zelão? Nóia de pedra? RUBENS Esse memo... BARBOSA Que é que tem ele? RUBENS É esse aqui ó. Vô prendê esse maluco aí. BARBOSA É mesmo? Por quê?

(CONTINUA...)

...CONTINUANDO:

86.

RUBENS As bala que matô todo mundo saiu da arma que era do pai dele. O pai me disse que ele roubou a arma pra fumar pedra, e eu vi ele em Sampa uns dias atrás... BARBOSA É nada... E aí vai fazer como? RUBENS Sozinho. (...) BARBOSA Ah, o delegado geral ligou. RUBENS Ligou? BARBOSA Uhum. Começô a falá um monte de bosta, que o senhor não tá fazendo nada... RUBENS Ah, dexa queto... Tô saindo, falou! CORTA PARA: 98

EXT./DIA - CASA DE VANDA MEIRELLES

98

A velha senhora rega as plantas de seu jardim. Rubens chega em seu portão. RUBENS Bom dia Dona Vanda! VANDA Bom dia! RUBENS Eu seu policial, meu nome é Delegado Rubens. Ele mostra seu distintivo rapidamente depois guarda-o de volta no bolso. Dona Vanda larga o regador, põe os óculos e vai até o portão. VANDA Calma. Deixa eu ver sua carteira de novo...

(CONTINUA...)

...CONTINUANDO:

87.

O delegado mostra a identificação novamente para a velha senhora que aproxima-se para conseguir, com dificuldade, ler. Ele sorri. RUBENS Certinho, tem que fazê isso mesmo. VANDA Ih, meu filho o tanto de ladrão que rouba a gente vestido de polícia hoje... RUBENS Eu gostaria de conversar um pouquinho com a senhora, posso? VANDA O que foi? RUBENS A senhora foi diretora da Escola Machado de Assis não foi? VANDA Sim eu fui, porquê? RUBENS Tem uma coisa que sempre me perturbou no Machado de Assis. VANDA Hm... Traiu ou não traiu? RUBENS Eu acho que traiu. VANDA Por quê? RUBENS Ciúmes do mar. VANDA Como assim? RUBENS Ele tava falando com ela, de frente pro mar; mas o pensamento dela tava tão longe que ele ficou com ciúmes daquilo que ele não sabia que ela tava pensando... Aí depois ela aparece com um monte de dinheiro que ninguém sabe de onde veio... Aí ela fala que o Escobar que fazia as conta pra ela; ela não contou pra ele não desconfiar... Hum! Aí tem... (CONTINUA...)

...CONTINUANDO:

88.

VANDA Ah! Coitada! RUBENS Sabe o que eu acho? VANDA O quê? RUBENS Que o Escobar pagou pra ficar com ela. VANDA Credo! Hahahá!!! Que delegado machista! Risos. RUBENS Hehehe. Dona Vanda, tem algo que eu quero conversar com a senhora... Sobre aquela escola... VANDA Pode falar. RUBENS Aconteceram alguns casos que envolvem pessoas que estudaram nela, talvez na época em que a senhora era diretora. VANDA Vish, mas já faz muito tempo que eu fui diretora... Muito tempo... RUBENS Sim senhora, eu sei disso... Poderíamos conversar? VANDA Já estamos conversando né... Ela abre o portão e ele vai entrando. RUBENS Eu falei com a Dona Lourdes ela me deu seu endereço. VANDA Ah o senhor conhece a Lurdinha? RUBENS Ela é minha sogra!

89.

99

INT./DIA - CASA DE VANDA MEIRELLES

99

Eles entram conversando e acomodam-se na sala. VANDA Nossa! Você casou com a filha dela então a... Haha, esqueci o nome dela! RUBENS Fernanda. VANDA Isso. Vish, ela é filha única hein... A Lourdes deve ficar em cima de vocês... RUBENS HUM! Nem me fala! Deus me livre Dona Vanda parece que ela faz de propósito! VANDA Hahaha, café? Dona Vanda serve ao delegado biscoitos e uma chícara de café. Com uma cara de idiota ele pega a chícara e toma um gole, ele odeia café. RUBENS Obrigado... Dona Vanda, sem rodeios, o assunto que eu quero conversar com a senhora é sobre alguns acontecimentos na época que a senhora era diretora da escola Machado de Assis. Parece que teve um aluno naquela época que causava problemas... VANDA Hm, quem? RUBENS Rodrigo Pires. VANDA Rodrigo...? RUBENS Filho do policial... VANDA Ah! Esse Rodrigo aí virou bandido... eu lembro dele... ele não causava problema não... ele (MAIS...) (CONTINUA...)

...CONTINUANDO:

90.

VANDA (...cont.) tinha problemas mentais. Ele ficava muito nervoso com as coleguinhas dele, ele escrevia umas coisas no caderno feias sabe, de morte, de guerra, eu num lembro mais o que ele escrevia mais eu lembro que eu ficava horrorizada, aí eu falava pra ele: "Rodrigo porque você faz essas coisas?" e ele me respondia: "Eu só penso nisso..." esquisito sabe? As meninas zombavam da Julia e ele ficava tão nervoso, as vezes até chorava... mas nunca arrumou confusão com ninguém... RUBENS E essa Julia? A dona Lourdes me falou dela também... VANDA Ah delegado... a Julia sofreu viu... as meninas caçoavam dela todo dia... todo dia tinha reclamação, ela brigava sabe, ela era forte e batia até nos meninos, aí todo mundo ficava com medo dela e falava que ela era um monstro por causa das deformações que ela tinha... tadinha... RUBENS Deformações? A dona Lourdes me disse que ela nasceu defeituosa, então ela era deformada? Como? VANDA No rosto. O olho esquerdo nasceu cego, branco, era feia mesmo coitada; e a orelha do mesmo lado do rosto não tinha, era um pedaço de carne assim, e o buraco do ouvido, tadinha. Ela cobria com o cabelo, mais aí ela pegou um piolho tão ruim que nem o remédio tirava e ela teve que raspar a cabeça, aí todo mundo viu e não teve jeito... RUBENS Hm...tsc. VANDA Coitada, as meninas falavam cada coisa horrível pra ela...

(CONTINUA...)

...CONTINUANDO:

91.

RUBENS Aí o Rodrigo ficava triste por causa disso? VANDA É ficava triste, nervoso, chorava aí todo mundo ria dele, aí ele chorava mais ainda... Eu achava interessante, ele era altruísta... Rubens olha para a senhora com certo desdém... VANDA (falando alto) Altruísta! Cê num sabe o que é altruísta? Só pensa nos outros. RUBENS Sim senhora... VANDA Eu acho que ele gostava da Julia... CORTA PARA: 100

INT./DIA - SALA DE AULA - ESCOLA MACHADO DE ASSIS

100

Na sala de aula a turma de quinta série onde estudam Julia e Rodrigo e a professora é Dona Lourdes. Comentários maldosos das alunas à respeito de Julia. KARINA Cuidado com a alien! LUCIANA Agora eu sei porque minha mãe as vezes vem com uma história de bicho papão! CARLA Não olha direto no olho dela senão você fica paralisado! Muitas risadas. Julia aos prantos. LOURDES Chega!!! Mas que coisa mais horrível que vocês fazem com a Julia, pra quê isso? Alguém aqui é perfeito por acaso? Olha aqui meninas, se esse tipo de (MAIS...) (CONTINUA...)

...CONTINUANDO:

92.

LOURDES (...cont.) comportamento de vocês não mudar eu vo chamá o pai e a mãe de cada uma aqui na escola! Rodrigo risca seu caderno com raiva, até rasgar a folha e quebrar o lápis. VALÉRIA Ó o namoradinho da assombração fico tristinho! JANINE Cuidado senão ele mata a gente hein! Rodrigo pára ao ouvir este último comentário, friamente debruça-se sobre sua carteira e começa a escrever: "Mata Mata Mata Mata Mata Mata". 101

EXT./DIA - ESCOLA MACHADO DE ASSIS

101

Em frente ao portão vemos a inscrição: "Escola Machado de Assis" e uma faixa que diz "Feira de Ciências". Grande movimentação na escola, pais e alunos, montando e arrumando seus trabalhos sobre os mais variados temas... Tiros das bancas sendo preparadas, as crianças correndo, pais bebendo e fumando. 102

INT./DIA - SALA DE AULA

102

Estamos novamente na sala de aula, só que agora as carteiras foram arrastadas para a parede para dar espaço aos trabalhos que recebiam os últimos retoques para a apresentação. Os alunos estão todos trabalhando em seus experimentos. As bonitinhas estão junto ao seu trabalho vangloriando-se. Montaram um experimento para realizar a dessalinização da água. Uma pequena tenda de lona plástica, embaixo é posta uma panela de água salgada para ferver, ao ferver a água evapora e atinge a superfície da lona condensando-se, e então pinga pela ponta da lona dentro de um balde: água potável. A dupla formada por Julia e Rodrigo montou um vulcão que entra em erupção. Sorridentes, eles contemplam o trabalho. As bonitinhas passam a observar o trabalho da dupla e quão felizes eles estão. Rapidamente elas começam a cochichar alguma coisa, se preparam; a professora está na porta conversando. (CONTINUA...)

...CONTINUANDO:

93.

Elas vem caminhando em direção à mesa da dupla, mas sem dar-lhes atenção. Uma das meninas joga um inseto morto no chão e sua colega começa a gritar histericamente pulando sem controle. Ela esbarra na mesa onde está o trabalho da dupla de Julia e Rodrigo que vai ao chão, despedaçando-se. Julia desespera-se, Rodrigo friamente consola-a enquanto encara o trabalho destruído; as meninas rindo disfarçadamente. A professora repreende e exige que peçam desculpas. As bonitinhas então pedem desculpas à dupla segurando-se para não rirem. CORTA PARA: 103

INT./DIA - CASA DE VANDA MEIRELLES (DE VOLTA)

103

VANDA Esse dia da feira de ciências foi um dos piores eles ficaram 2 meses preparando as apresentações e foi tudo destruído sem que ninguém visse... RUBENS A Dona Lourdes tem um quadro com essa foto aqui. Mostra a foto do celular. VANDA Ah eu também tenho, num álbum de fotos, qué vê oh... Ela levanta-se, e anda até um dos quartos, Rubens fica sozinho na cena em silêncio, ouvimos a voz de Dona Vanda. VANDA (OFF) Tem uma porção de álbuns de foto aqui, de quase todas as turmas que tinha na época, quando tinha formatura sempre faziam book de fotos e num sei o quê mais... Ele não agüentava mais beber aquele café e despeja todo o conteúdo da xícara no vaso de planta que está ao lado de sua poltrona, retoma a posição anterior de quando ainda sorvia-o, Dona Vanda retorna com o álbum nas mãos... VANDA Aqui. Essa era a turminha da Julia e do Rodrigo...

(CONTINUA...)

...CONTINUANDO:

94.

RUBENS Quem que tirava sarro dela? Ela folheia o álbum até chegar na página com uma foto exclusiva das seis "bonitinhas". VANDA Aqui ó. Os nomes tão aqui ó... Rubens leva a mão à boca, estarrecido, imediatamente fica ofegante e começa a gaguejar. VANDA Algum problema delegado? RUBENS N-Não senhora, tudo bem. A senhora ajudou muito, mas agora eu preciso ir embora. VANDA Tudo bem, qualquer coisa pode vir aqui, eu nunca recebo visitas mesmo. RUBENS Sim senhora, até mais... CORTA PARA: 104

INT./DIA - CARRO EM MOVIMENTO

104

Rubens dirige imóvel. TIRO: a página do álbum de fotos de Dona Vanda com os nomes das meninas. Os nomes são: Valéria, Carla, Ana Carolina, Karina, Janine e Luciana. CORTA PARA: 105

INT./DIA - DELEGACIA

105

Rubens entra na delegacia e é imediatamente abordado por Barbosa. BARBOSA Por aqui, senhor. RUBENS O que foi?

(CONTINUA...)

...CONTINUANDO:

95.

BARBOSA Aquela foto que o senhor me deu. As vítimas estão na foto, ainda crianças! RUBENS Não diga... Faz o seguinte, acha o endereço dessa Luciana pra mim. BARBOSA Agora mesmo senhor. RUBENS Você tem o endereço dessa Julia? BARBOSA Ainda não senhor, mas eu pego junto com o da Luciana. RUBENS Beleza. CORTA PARA: 106

INT./DIA - SALA NA DELEGACIA

106

Numa sala Rubens pensa sozinho, ouvindo Blues, concentrado, olhando para a foto da turma. Um pequeno aparelho CD Player está ligado. Anoitece. Ele se levanta, desliga o som e sai de cena. CORTA PARA: 107

EXT./DIA - QUADRA DE FUTSAL DA ESCOLA

107

Os meninos escolhem o time de futebol. O número de rapazes é ímpar. Rodrigo está animado, mas seus "amigos" não o escolhem, os outros são chamados e ele fica para trás. Somente dois sobram. Rodrigo e outro magricela. O capitão do time olha indeciso para os dois, escolhe o magricela e todos viram as costas para Rodrigo e vão jogar. O grupo das bonitinhas que observava tudo da arquibancada dá risada da cara de Rodrigo, ridicularizando-o e xingando-o.

96.

108

INT./DIA - SALA DE AULA - ESCOLA MACHADO DE ASSIS

108

Durante a aula uma das meninas levanta-se e diz: MENINA Gente ó. Vô distribuí os convites pro meu aniversário hein. É sábado e é pra levá roupa pra nadá. Todos da sala recebem convites, menos Julia e Rodrigo. A professora, disfarçadamente, ri da situação. CORTA PARA: 109

EXT./NOITE - CASA DE RODRIGO

109

A luz do poste em frente à casa pisca incessantemente. Vemos a casa sendo iluminada pela luz que pisca. Vemos Rubens do outro lado da rua, escondido, é iluminado pelo poste e depois desaparece, e assim continua com o piscar da luz. O delegado agora está vestido como qualquer jovem, calça big e camiseta do Jimmi Hendrix. Ouvimos o típico som do celular vibrando. No visor diz: "1 mensagem". A mensagem é de Marli, e diz: "consegui o mandado, pode prender". Rodrigo sai de casa e Rubens o segue a pé. Rodrigo está usando uma camiseta preta com centenas de pontos de interrogação brancos. CORTA PARA: 110

EXT./NOITE - RUA DESERTA

110

Vemos Rodrigo andando rapidamente, suado e sorridente, dá longas e constantes puxadas com o nariz e coça-o. Rubens segue-o. CORTA PARA:

97.

111

EXT./NOITE - PORTÃO DA BOATE PRIVADA

111

Uma porta guardada por dois seguranças gigantes e uma fila enorme esperando no sereno. Rodrigo chega em um dos seguranças, diz alguma coisa e entra em seguida, as pessoas na fila protestam, os seguranças não ligam a mínima. Rubens observa. Alguns segundos depois o delegado chega no segurança da mesma forma. RUBENS Posso entrar parceiro? SEGURANÇA Tem que ficá na fila. RUBENS Mas o cara ali entrou sem fila. SEGURANÇA Mas você não é aquele cara, você fica na fila. O segurança dá as costas para Rubens, ele bate no ombro do segurança para que ele se vira novamente, dessa vez ele fica aborrecido e olha Rubens dos pés à cabeça analisando sua indumentária. O delegado insiste: RUBENS Eu só quero falar com aquele cara rapidinho... SEGURANÇA Truta, faz o seguinte, vaza da minha frente, senão ao invés de você entra na boate, você vai entra na UTI! O segurança dá um empurrão em Rubens e vira de costas novamente, Rubens então resolve arrematar e torna a chamar a atenção do segurança que agora caminha até o delegado com a intenção de lhe dar uma porrada, mas antes que ele se aproximasse o suficiente Rubens tira seu distintivo do bolso e mostra para o rapaz, com um sorriso de desprezo ele diz: RUBENS Então você fecha a boate, que eu vô dá uma batida pra ver se tem menor bebendo e gente usando droga. O segurança fica paralisado, começa a gaguejar e o delegado completa:

(CONTINUA...)

...CONTINUANDO:

98.

RUBENS Dá licença vai... CORTA PARA: 112

EXT./NOITE - PORTA DA BOATE

112

Vemos as costas do delegado de frente para porta, os seguranças apreensivos abrem caminho para ele, a multidão da fila protesta novamente, ele entra e o seguimos boate a dentro, revelando o ambiente. 113

INT./BOATE PRIVADA

113

O lugar é meio escuro, uma iluminação com tons de vermelho, uma pista central onde pessoas dançam lentamente no ritmo também lento da música. O delegado se assusta com o lugar, parece que foi transportado para outro mundo. Na parede um grande letreiro iluminado diz: O.P.I.U.M. STARS Acima da pista estão os camarotes onde as pessoas fumam ópio em longas maricas, cheiram cocaína e fumam cachimbos de crack. Rubens caminha lentamente pelas pessoas observando a podridão. Ao passar por uma moça asiática ele a escuta: MOÇA Prove este, veio do Afeganistão... Ela oferece um cachimbo de ópio para uma outra mulher, maravilhosa; Rubens observa, a mulher fuma o cachimbo, segundos depois começa a andar de forma estranha, acredita estar flutuando, um homem aborda-a e imediatamente aperta suas nádegas, ela sequer esboça reação e deita sua cabeça no ombro do desconhecido que a leva para fora de cena. Rubens então passa a observar a pista de dança abaixo dele, as pessoas dançam de forma quase robótica, assustadora, começamos a perceber que alguns estão usando drogas, cheirando perfume, cocaína, uns tomam comprimidos; outros deitados no chão, no meio da multidão, com seringas nos braços. Rubens passeia pela boate, inalando diferentes fumaças, lentamente ele começa a se entorpecer, sua vista embaça um pouco, ele começa a rir do que vê. Uma moça de bikini passa com uma bandeja de baseados bolados. Rubens para-a e pega um, a mulher flerta com ele por alguns segundos e vai embora, ele acende.

(CONTINUA...)

...CONTINUANDO:

99.

Todo o lugar possui, além da iluminação normal, luz negra, as peças de roupa branca brilham, a cabeça de Jimi Hendrix na camiseta de Rubens brilha. Os pontos de interrogação na camiseta de Rodrigo brilham lembrando O Charada. Rubens identifica-o e começa a prestar atenção ao que ele faz, ele conversa com várias pessoas, entrega algo e recebe algo em troca. Em close vemos que ele está traficando drogas dentro da festa. Eles se cruzam uma vez, mas Rodrigo não percebe. CORTA PARA: 114

EXT./NOITE - RUA EM FRENTE À BOATE

114

Agora vemos a rua por outro ângulo, estamos em cima da porta e vemos a rua seguir até desaparecer. Rodrigo sai pela porta e caminha até ser envolvido pela sombra. CORTA PARA: 115

INT./CORREDOR DE SAÍDA DA BOATE

115

Acompanhamos Rubens por trás enquanto ele vai até a saída, vemos os dois seguranças de costas, o delegado dá um empurrão no segurança que sai cambaleando; quando ele volta, furioso, vê que é o delegado e pára, Rubens aproxima-se e encara-o face-a-face, dá um sorriso sem vergonha e vai embora. O segurança olha para o colega. CORTA PARA: 116

EXT./NOITE - EDIFÍCIO

116

Estamos em frente a um edifício residencial. Rodrigo entra no edifício. CORTA PARA: 117

INT./NOITE - CORREDOR - 2º ANDAR

117

Rodrigo sobe pela escada e vai até uma porta. A câmera filma alguns degraus abaixo, a iluminação é baixa. Rubens assiste a tudo no fim da escada, coberto pela escuridão.

(CONTINUA...)

...CONTINUANDO:

100.

Rodrigo bate na porta, alguns segundos depois ela se abre e ele entra. Rubens sobe a escada devagar, olha em volta e encosta o ouvido na porta. 118

INT./NOITE - APARTAMENTO

118

O apartamento é uma boca de fumo, a traficante, uma jovem negra, linda, conversa com Rodrigo sentado no chão em volta de uma mesa com muita, muita cocaína. RODRIGO Meu, vendi tudo em menos de meia hora! Me dá mais 50, que o povo lá tá fervendo! TRAFICANTE Cê fica esperto hein rapaz! Vendendo cocaína dentro de boate, jajá você roda aí ó... Num quero vê polícia bateno aqui na minha porta por causa de você não. 119

INT./NOITE - CORREDOR - 2º ANDAR

119

Ouvimos os dois conversando dentro do apartamento, mas não entendemos o que dizem. Rubens, com a cabeça encostada na porta, saca sua arma, destrava-a, checa a bala na agulha e continua a ouvir... 120

INT./NOITE - APARTAMENTO

120

RODRIGO Fica sussa. Aquela boate é diferente. O povo vai pra lá pra usá droga memo. Ninguém tá nem aí... E eu sei fazê o corre direito, cê tá ligada. Já trouxe uma pá de mala cheia de pó lá de Sampa pra você e não deu nada! TRAFICANTE Vai nessa, vai... Cê acha que a vida é assim, ninguém tá nem aí, daí quando você menos espera... Batidas na porta interrompem a fala de Laís. Eles se olham, ela levante e vai até o olho mágico verificar. Do outro lado está Rubens com o cabelo despenteado, cabeça pendida para a direita e cara de chapado. (CONTINUA...)

...CONTINUANDO:

101.

Ela imediatamente acha que é alguém querendo comprar pó, e abre a porta. Rubens está na mesma posição; só que segura sua arma apontada para ela numa das mãos e o distintivo na outra. Sem reação ela olha para arma, para o distintivo, para ele... Ele então dá uma risada sem vergonha e é surpreendido pela traficante que imediatamente bate a porta em sua cara. CLOSE em um trinco de ferro enorme que ela fecha rapidamente. TRAFICANTE (gritando) Num tô falando caralho! Sujô, é os homi, vai! VAI caralho!!! Desesperados eles pegam algumas coisas, ignoram as drogas. Ouvimos pancadas na porta. Eles entram em um dos quartos, ela vai até a janela, abre e sai por ela. Mais pancadas. Rodrigo também pula, a traficante já está em cima de uma moto 1000 cilindradas na calçada. Ouvimos a porta sendo arrebentada e o som de uma barra grande de ferro caindo no chão. Rodrigo monta na garupa e os dois saem "voando" pela rua. 121

INT./NOITE - 2º ANDAR

121

CLOSE na porta sendo batida na cara de Rubens. Ele não acredita no que ela fez, esbraveja e tenta arrombar a porta; primeiro tentar chutar, não consegue, tenta então atirar-se contra a porta, não consegue e ainda machuca o ombro. Sem opções ele começa a olhar para os lados e avista alguma coisa, ele corre e sai de cena. Segundos depois ele volta correndo e gritando, segurando um extintor de incêndio grande nas mãos; ele bate com toda a força na porta.

102.

122

INT./NOITE - APARTAMENTO

122

A porta é arrebentada, o extintor de incêndio cai no chão fazendo barulho, o trinco permanece intacto. Rubens entra no apartamento, vê as drogas, fatia todos os cômodos com a arma na mão e consegue chegar até a janela aberta a tempo de vê-los desaparecer de moto no breu da madrugada. Ele descarrega sua arma na direção deles, mas não acerta nada. RUBENS Caralho! O delegado olha pela janela a rua deserta. CORTA PARA: 123

EXT./ NOITE - PRÉDIO

123

Várias viaturas no local. No apartamento, Rubens conversa com Barbosa. RUBENS Eu já tenho o mandado de prisão pra ele, então você pode botá o povo pra caçar... BARBOSA Sim senhor... Senhor, tem mais uma coisa... O celular de Rubens toca. RUBENS Peraí Barbosa. Alô? E aí Mesquita... Pois é rapaz parece que é o cara memo... já já sim, agora até pega ele é uma questão de tempo... Uhum, beleza... Podexá eu ligo sim... Falou. Oi Barbosa, fala... BARBOSA O endereço daquela Luciana, senhor. RUBENS Que que tem?

(CONTINUA...)

...CONTINUANDO:

103.

BARBOSA É aqui senhor, seis andares pra cima... CORTA PARA: 124

INT./NOITE - PRÉDIO - 8º ANDAR

124

Vemos o andar vazio e escuro, as portas dos apartamentos fechadas. Alguns segundos depois ouvimos o barulho do elevador e a porta se abre, saem os policiais. Após identificar a porta de Luciana, Rubens bate. Ninguém atende. Rubens começa a ficar nervoso. Ele bate com mais força e percebe que a porta está quebrada perto da maçaneta, fora arrombada, ele empurra e a porta se abre sem dificuldade, eles sacam as armas e entram. O cheiro horrível denuncia que algo ruim aconteceu. No quarto está o corpo de Luciana, em frente ao de sua mãe idosa, enforcada. CLOSE nos dois policiais olhando para a cena, sem reação. CORTA PARA: 125

INT./NOITE - DELEGACIA

125

O delegado geral conversa ao telefone com Rubens. As cenas dos dois são intercaladas. JÚLIO E aí Rubens? Num tem mais fitinha de cabelho nenhuma... O que você me diz? Vai esperar o cara matá a classe inteira? RUBENS Não senhor. JÚLIO Tá, então vai fazê o quê? RUBENS Pegá-lo senhor. JÚLIO Como?

(CONTINUA...)

...CONTINUANDO:

104.

RUBENS A polícia daqui já tá atrás dele, Prudente não é São Paulo, jajá ele cai... JÚLIO Quando eu deixei você ir praí eu disse que queria resultado não disse? RUBENS Sim senhor. JÚLIO (esbravejando) O único resultado que eu tô vendo é o da lista de vítimas aumentando, porra! Se vira! Pega esse maluco ou então rapa fora que eu vô arruma alguém que consiga! Júlio bate o telefone no gancho com tanta força que todo o aparelho é arremessado ao chão. Rubens suspira por alguns segundos de nervoso e fagida. Chacoalha a cabeça, levanta-se rapidamente e sai. CORTA PARA: 126

INT./MADRUGADA - QUARTO DE HOTEL

126

Ele tenta dormir, fica horas deitado e não prega os olhos, rola de um lado para o outro, fuma um baseado, nada resolve. RUBENS Tinha que esquecê a porra do diazepam... Tsc! Amanhece. Rubens fumando olhando pela janela. CORTA PARA: 127

EXT./DIA - FARMÁCIA

127

Vemos a farmácia de frente, Rubens entra em cena pelo lado esquerdo e adentra a farmácia.

105.

128

INT./DIA - FARMÁCIA

128

Alguns clientes... Rubens espera até que todos vão embora, com a farmácia vazia ele vai até o farmacêutico. RUBENS Ô parceiro... Tem Valium ae? FARMACÊUTICO Sim senhor. Vô precisa da receita... RUBENS Precisa memo? Os dois se olham por alguns segundos. O homem vai até o fundo da farmácia, traz um frasco e coloca-o no balcão. Rubens pega, vemos em CLOSE: VALIUM (DIAZEPAM). O delegado então tira da carteira uma nota de R$100,00 e coloca-a no balcão, o balconista se assusta, o delegado dá uma piscadela para ele, vira-se e vai embora. CORTA PARA: 129

INT. - LABORATÓRIO DA POLÍCIA

129

Legenda: Três dias para o aniversário No laboratório de vídeo, o técnico cansado e morto de sono, mostra ao delegado as imagens do circuito interno de TV. TÉCNICO O legista disse que ela ficou pelo menos cinco dias morta, então eu chequei toda a movimentação de cinco dias atrás até ontem, o Rodrigo entra e sai do prédio duas ou três vezes todos os dias, agora não dá pra saber se ele foi só na boca ou se foi em outro apartamento. RUBENS Hm... Prum cara armá e executá tudo isso que tá acontecendo ele tem que ser dedicado, comprometido, obssessivo... TÉCNICO Paciente...

(CONTINUA...)

...CONTINUANDO:

106.

RUBENS Principalmente paciente, imagine o cara tramar isso durante mais de 20 anos... TÉCNICO E preciso. RUBENS Precisão... (...) Ele deve negociar drogas com essa traficante só pra desviar a atenção... TÉCNICO Ué mais aí ele "desvia" atenção pra ele mesmo? RUBENS "Não sou assassino, sou traficante, a mina aí tá ligada ó pergunta pra ela. (...) Tá bom, eu menti. Eu fui pra São Paulo pra trazer cocaína". Já viu algum álibi tão criativo? Pra ele pouco importa a cadeia, ele conseguiu executar a vingança com perfeição... TÉCNICO Vingança? RUBENS Ah dexa queto, é uma longa história... O técnico boceja. RUBENS Dormiu pouco? TÉCNICO Dormir? Tô olhando pra essa tela desde as duas da manhã... RUBENS Pois é... Qué um negócio pra te ligá? TÉCNICO O quê? Rubens tira do bolso o frasco vermelho.

(CONTINUA...)

...CONTINUANDO:

107.

RUBENS Anfeta. TÉCNICO Nossa, demorô! O técnico toma uma pílula junto com refrigerante. Em uma das imagens em que Rodrigo aparece no saguão do prédio também vemos uma pessoa com uma jaqueta marrom saindo do prédio. 130

INT./DIA - DELEGACIA

130

Rubens vai falar com Barbosa e entrega-lhe um papel. RUBENS Dá uma olhada nesse lugar qualqué dia desses... BARBOSA O que é? RUBENS Uma boate. BARBOSA E o que tem essa boate? RUBENS Vai lá e vê... BARBOSA Hum... CORTA PARA: 131

INT./DIA - IGREJA

131

Estamos em uma igreja lotada, no momento do louvor. As pessoas cantam e batem palmas ferozmente, algumas falam em línguas, momento de grande adoração. Vemos o pastor ao fundo cantando e abençoando os presentes, a banda tocando uma música carismática bastante animada. Por fim, vemos os backing vocals, um deles é Julia, que canta emocionada. CORTA PARA:

108.

132

INT./DIA - CASA DE JULIA

132

Julia ajuda sua mãe a usar o banheiro, depois coloca-a na cadeira de rodas e a leva para a cozinha. No rádio ouve-se uma programação religiosa, vários artigos religiosos pela casa, bíblias abertas, calendários com salmos, adesivos, imagens de Jesus, etc. Sua mãe fuma cigarros sem parar. Julia tem quase trinta anos e cabelo comprido, usa roupas que escondem suas formas. A campainha toca e Julia vai atender. RUBENS Srta. Julia Filgueiras? Eu sou o delegado Rubens. JULIA Sim. RUBENS Será que eu poderia falar um pouco com a srta.? JULIA É sobre as mortes né? RUBENS De certa forma sim. JULIA Pode entrar. RUBENS Então a senhorita já sabe dos assassinatos? Julia mostra ao delegado um jornal local com uma manchete sensacionalista sobre os acontecimentos. O jornal está em cima de uma mesa com cadeiras em volta, numa das cadeiras vemos uma jaqueta marrom pendurada. JULIA Eu imaginava que logo a polícia viria aqui... RUBENS Por quê? JULIA Porque eu estudei com elas, todas elas...

(CONTINUA...)

...CONTINUANDO:

109.

RUBENS É eu já sei. JULIA Viu? RUBENS Eu gostaria de conversar sobre o Rodrigo. JULIA Tinha certeza que era sobre ele, quando fiquei sabendo que ele tinha virado bandido... RUBENS A senhorita mantém contato com ele ainda? JULIA Ah, me chama de você... Não; já faz muitos anos que não nos falamos. RUBENS E com as vítimas? Tinha algum contato com elas? JULIA Desde a oitava série eu nunca mais soube de ninguém, eu quis assim. RUBENS Eu imagino... JULIA Imagina? Já sabe o que acontecia no passado? RUBENS Sim eu já sei. JULIA Quem te contou? RUBENS Dona Vanda Meirelles. JULIA Hum... Dona Vanda... (...) RUBENS Algum problema?

(CONTINUA...)

...CONTINUANDO:

110.

JULIA O que ela te contou? RUBENS Que suas colegas de classe zombavam muito de você... JULIA O que ela contou sobre a Lourdes? RUBENS O de sempre... A professora que procurava te defender... Julia dá uma risada de desdém. RUBENS O que foi? JULIA A Vanda nunca deu bola para o que acontecia naquela sala, pra ela tava tudo bem, tudo certo. E a Lourdes... Ah! Esquece. Coisas do passado, Jesus já me libertou disso. Elas vão receber a punição que merecem, todas elas... O senhor queria falar sobre o Rodrigo? RUBENS Sim. Achamos que ele pode estar envolvido nas mortes... JULIA Nossa... Eu sabia que ele tava mexendo com droga só... RUBENS Nada lhe chamou a atenção ultimamente? Nada fora do comum? JULIA Ah eu ouvi no rádio uma vez que prenderam um pessoal aqui que traficava, daí o Rodrigo tava no meio, mas foi solto, não sei. Parece que eles iam pra São Paulo e traziam a droga de lá... RUBENS Hm... Mas o que você ia dizer mesmo sobre a Lourdes? JULIA (começa a ficar nervosa) Ah! A Lourdes... Ela não defendia ninguém não... Ela nunca me (MAIS...) (CONTINUA...)

...CONTINUANDO:

111.

JULIA (...cont.) defendeu... Ela era comparsa daquelas meninas, nunca chamou a atenção delas... CORTA PARA: 133

INT./DIA - SALA DE AULA - ESCOLA MACHADO DE ASSIS

133

Desta vez os personagens são os mesmos, um pouco mais velhos, a diferença está na coloração, o uniforme deve ter cores completamente diferentes do primeiro flashback, assim como as paredes, as carteiras e as roupas da professora, estamos de volta à sala, mas na versão de Julia. Muito contraste. Na lousa vemos: Terça Feira, 23 de Setembro de 1987. 8ª série, agora a professora Lourdes tem uma aparência mais ameaçadora, perigosa, as meninas são ainda mais perversas nas brincadeiras e ofensas, quando elas acontecem a professora ri, incentivando as meninas. LOURDES Gente. Cês viram o que aconteceu? Um pessoal achou uma caixa, uma coisa, num sei, que tinha esse Césio 137, um material radioativo. O contato com esse negócio causa câncer e provoca até mutações genéticas! VALÉRIA Quiqui é mutações genéticas? LOURDES É quando... (...) Quando a mãe tá grávida, dae vêm a mutação, e a criança nasce defeituosa. VALÉRIA Ah! Igual a Julia! Gargalhadas gerais. LOURDES (rindo) Não... Não fala assim Valéria. Quando a professora ri, a sala ri mais ainda. Julia observa a professora que não consegue se controlar.

(CONTINUA...)

...CONTINUANDO:

112.

Noutro momento, todos estão quietos fazendo uma atividade no caderno, a professora vem caminhando lentamente até a carteira de Julia sem que ela perceba e dá um tapa com força na mesa, assustando-a. LOURDES Filgueiras, deixa eu ver seu caderno! Isso é letra? Você não sabe escrever? Esses garranchos aqui eu não entendo nada. Ela arranca a folha, amassa-a e joga fora. LOURDES Começa tudo de novo anda, anda! Rodrigo observa tudo... CORTA PARA: 134

EXT./DIA - PÁTIO DA ESCOLA MACHADO DE ASSIS

134

Todas as crianças correm e se divertem no recreio. Muita gritaria. Ouvimos o sinal tocar para que entrem nas salas. 135

INT./DIA - SALA DE AULA - ESCOLA MACHADO DE ASSIS

135

Os alunos entram na sala; Julia senta em sua carteira e embaixo há um envelope escrito: "Para Julia, de Carlos". Carlos era o garoto mais bonito da sala, cobiçado por todas as meninas inclusive Julia, porém ela jamais manifestara tal sentimento. Ao ver o envelope, seu coração disparou e foi difícil conseguir disfarçar. Ela tenta olhar para Carlos sem levantar suspeitas, mas é retribuída com um sorriso lindo do garoto que a deixa completamente desconcertada, "o bilhete vinha dele mesmo!". As "bonitinhas" cochichavam algo, olhando para ela. Ela então abre o envelope ainda embaixo da carteira, retira a folha e a coloca em cima da mesa antes de abrir, quando abre, depara-se com a famosa imagem assustadora de Linda Blair em O Exorcista, imediatamente ela grita de susto e pavor, estava completamente enganada. Carlos não esboça reação, apenas assusta-se com o grito, já as "bonitinhas" caem na gargalhada, Julia então percebe que foi vítima de mais uma brincadeira maldita e segura-se para não chorar de ódio. CORTA PARA:

113.

136

INT./DIA - CONSULTÓRIO MÉDICO

136

Uma mulher consulta-se com o doutor, fumando. MULHER Nem adianta doutor. Pará de fumá num dá, não consigo. DOUTOR Antônia se você não qué pará de fumá o problema é seu. Agora eu vô te falá uma coisa, cê nem precisa mais vim aqui então, se você não pará, a tosse não vai pará, nem o chiado, nem a dor nas costa... ANTÔNIA Ah! Quiqui dor nas costa tem a ver com cigarro? DOUTOR Quiqui tem a ver? Nada! Ele só apodrece os ossos. Antônia ri e o doutor apenas observa. DOUTOR Olha o que aconteceu com você na gravidez, quase perdeu a criança, e ela nasceu toda defeituosa... ANTÔNIA (nervosa) O cigarro não teve nada a ver com aquilo, a Julia nasceu assim porque eu ficava muito nervosa com aquele imbecil do pai dela, a melhor coisa que eu fiz na minha vida foi largá dele. DOUTOR Uhum... ANTÔNIA E qué sabê o que mais? Se faz mal, se não faz, num interessa. Eu gosto ué, paciência. DOUTOR Fazê o quê... ANTÔNIA O senhor vai me dá alguma coisa pra essa tosse ou não?

(CONTINUA...)

...CONTINUANDO:

114.

DOUTOR Vô né... Fazê o quê? Paciência... Ele escreve uma receita e dá pra ela. Antônia apaga seu cigarro no cinzeiro que está na mesa do médico e levanta-se. ANTÔNIA Brigada doutor. Tchau. DOUTOR Tchau. Ela sai e fecha a porta. O doutor acende um cigarro. Dá uma grande tragada. DOUTOR Paciência... CORTA PARA: 137

INT./DIA - CASA DE JULIA

137

Vemos a porta da sala que é aberta por fora. Julia, ainda criança, entra. JULIA Oi mãe! Ela se incomoda com o cheiro do cigarro e abana-se com as mãos. Há cinzeiros pela casa, copos com água e bitucas, os vazos de planta também viram cinzeiros... Antônia está sentada numa mesa lendo uma revista, fumando. ANTÔNIA Julia vem cá. Pega aquele negócio ali... Ela levanta-se da cadeira, começa a tossir, e não pára mais. Julia observa assustada. CORTA PARA: 138

INT./DIA - CASA DE JULIA (DE VOLTA)

138

JULIA Minha mãe foi ficando cada vez mais doente... Acabei que nunca mais voltei pra escola...

(CONTINUA...)

...CONTINUANDO:

115.

RUBENS Que coisa horrível... JULIA Você quer saber, o pior não era nem as meninas... Mas a professora... Como é que pode... o delegado fica abatido. CORTA PARA: 139

INT./DIA - SALA DA DELEGACIA

139

Rubens pensa sozinho, em silêncio... Seu celular toca. RUBENS E aí Marli? MARLI E aí Rubinho, tudo certo? RUBENS Nada resolvido. MARLI É mais já tão na cola do cara já fiquei sabendo. RUBENS Uhum... MARLI Mandei o mandado aí pra você, vai chega na delegacia amanhã. Já comprei seu presente também. RUBENS Nossa que firmeza, o que você comprou? MARLI Um conjuntinho da Victoria’s Secret. RUBENS Hm... O que é? MARLI Uma blusinha branca básica e uma calcinha.

(CONTINUA...)

...CONTINUANDO:

116.

RUBENS Não!!! MARLI Ahn? RUBENS Não... nada... Quanto custou? MARLI Duzentos e oitenta reais. Coisa fina! RUBENS Quem afina é minha conta! Mas também se ela não gostar duma calcinha e duma blusinha de duzentos e oitenta conto eu dou umas bordoada nela... Risadas MARLI Tá bom então... Tchau Rubinho. RUBENS Tchau Marli! Rubens observa as fotos. Barbosa entra. RUBENS O que você sabe sobre esse Rodrigo, Barbosa? BARBOSA O que tem pra saber... Ladrão, drogado e agora assassino... RUBENS Hm... Qué saí prum rolé? CORTA PARA: 140

EXT./DIA - CASA DE RODRIGO

140

A viatura encosta em frente à casa. 141

INT./DIA - VIATURA

141

Barbosa fala apreensivo.

(CONTINUA...)

...CONTINUANDO:

117.

BARBOSA O senhor tem um mandado pra entrá aí delegado? RUBENS Tenho, amanhã chega lá de Sampa. 142

EXT./DIA - CASA DE RODRIGO

142

Eles batem na porta com a arma em punho, prontos para qualquer reação, não tem ninguém em casa, o delegado prepara-se para arrombar a porta com um pontapé quando é repreendido por Barbosa, com o auxílio de uma micha ele abre a porta tranqüilamente e olha para o delegado com um sorriso, o delegado retribui. RUBENS É isso aí, McGuyver! 143

INT./DIA - CASA DE RODRIGO

143

Dentro da casa eles observam atentamente os objetos, Rubens encontra um livro sobre serial killers, artigos de assassinos brasileiros como Champinha; o maníaco do parque, etc. Uma latinha de alumínio com uma quantidade considerável de cocaína. Barbosa descobre dinheiro e uma foto igual à da Dona Lourdes, só que nesta, os rostos das "bonitinhas" foram queimados por um cigarro, ele chama o delegado e mostra; no quarto os dois olham todos os objetos. RUBENS Você tem alguma dúvida de que ele é o cara? Tá assistino filme demais, coitado... CORTA PARA: 144

INT./NOITE - QUARTO DE HOTEL

144

Ao telefone com Fernanda. FERNANDA Amor vô chega mais cedo! RUBENS Ah é? Quando? FERNANDA Amanhã!

(CONTINUA...)

...CONTINUANDO:

118.

RUBENS Nossa! Como conseguiu? FERNANDA Amanhã vai ter só debate, resolvi ir embora antes... RUBENS Nossa que bom amor... eae vai chegá que horas? FERNANDA O vôo sai na madruga, até eu pega a "ponte" pra Prudente... Acho que amanhã de manhã eu tô chegando, dae vô de táxi lá pra casa da mamãe. RUBENS Ótimo, ótimo! Se não tiver nada de interessante lá na delegacia eu vou pra lá mais cedo também. FERNANDA Isso! Dae a gente vai almoçá fora. RUBENS Certo. FERNANDA Beijo amor, até amanhã! RUBENS Beijo! Rubens senta-se na cama e pega a bula no frasco de Valium, começa a ler: RUBENS Reações Adversas: Os efeitos colaterais mais comuns são fadiga, sonolência e fraqueza muscular. Ocorrem no início do tratamento e depois desaparecem. Também podem ocorrer ataxia, confusão mental, constipação, depressão, diplopia, disartria, distúrbios gastro-intestinais... Ele amassa a bula e joga-a para trás, toma duas cápsulas do calmante e deita-se, pega o controle do DVD, aperta o play e deita-se no sofá. CORTA PARA:

119.

145

EXT./MANHÃ - CAFÉ DA MANHÃ NO HOTEL

145

O delegado toma o café da manhã ainda no hotel, tranqüilo, as pessoas ao seu redor também tranqüilas, nada de anormal. CLOSE numa garrafa térmica de café sendo bombeada por Rubens que enche sua xícara e sai bebendo. Sentado na mesa ele come despreocupadamente, acima, na parede logo à sua frente, vemos uma moldura com uma folha escrita na máquina de escrever. A mesma frase preenche toda a folha: "All work with no play makes Jack a dull bag." Rubens encara a moldura, surpreso. Na televisão um noticiário matutino marca 08h00 na tela e mostra imagens dos destroços de um terrível acidente de avião, na parte inferior vemos a legenda: Acidente aéreo deixa 150 mortos no RS. O apresentador dá a notícia: APRESENTADOR O acidente com o avião da empresa argentina causou a morte de 150 pessoas. Às 3h25 da madrugada a aeronave modelo B-182 decolou da cidade de Buenos Aires; poucos minutos após entrar no território brasileiro, o avião caiu por motivos ainda desconhecidos numa mata de difícil acesso próxima à região de Santana do Livramento no Rio Grande do Sul. As equipes de busca trabalham exaustivamente mas as possibilidades de haver algum sobrevivente são, segundo o comandante das operações de resgate, mínimas... Rubens fica surpresso e apreensivo, sua mulher deveria chegar de viagem a qualquer momento e seu vôo partira de Buenos Aires. Nervoso ao lado cara de notícia

ele olha para o lado e vê o investigador Barbosa do delegado geral Júlio Mesquita, ambos com uma desconsolo e tristeza, estão ali para dar uma terrível para Rubens.

Imediatamente seu celular toca e na identificação diz: "Dona Lourdes". Os policiais aproximam-se de Rubens e começam a falar.

(CONTINUA...)

...CONTINUANDO:

120.

JÚLIO Rubens, nós sentimos muito... O delegado recusa-se a acreditar, a fala continua. JÚLIO ...não há sobreviventes. Rubens grita de horror e desespero. CORTA PARA: 146

INT./MANHÃ - QUARTO DE HOTEL

146

Rubens acorda do pesadelo no quarto do hotel já iluminado pela luz da manhã, ele está suado e ofegante. Levanta-se e caminha até o frigobar, retira uma lata de cerveja, pega o frasco vermelho, pôe uma anfetamina na língua, abre a lata e toma tudo de uma só vez, joga a lata no lixo. CORTA PARA: 147

INT./DIA - DELEGACIA

147

No interior da delegacia a movimentação rotineira. Rubens entra e caminha entre as mesas até sua sala. Ele está abatido, seu pesadelo o deixou preocupado e desmotivado. Ele ainda ouve a voz do delegado Júlio dando-lhe a terrível notícia dentro de sua cabeça. JÚLIO (off) Não há sobreviventes... Quando se aproxima de sua sala o investigador Barbosa vem correndo para abordá-lo. É repreendido por um sinal do delegado de que não queria falar com ninguém. Rubens entra em sua sala. 148

INT./DIA - DELEGACIA - SALA DE RUBENS

148

O delegado geral Júlio Mesquita o aguardava. Os dois se olham em silêncio.

(CONTINUA...)

...CONTINUANDO:

121.

RUBENS Fala truta... JÚLIO Tudo bem Rubens? (...) RUBENS Sim senhor. JÚLIO Surpreso? Rubens arruma suas coisas, visivelmente nervoso. RUBENS Não esperava sua visita aqui senhor... JÚLIO O que que engorda a boiada? RUBENS Certo... JÚLIO E aí já prendeu o filho da puta? RUBENS (sentando-se) Senhor... até agora não tivemos progresso. Ontem eu tinha ele nas minhas mãos... mas escorregou... Se o senhor achar que deve colocar outro no caso, não vou protestar... JÚLIO Acabou Rubens. RUBENS Acabou o quê? JÚLIO Acabou ué! O Rodrigo morreu ontem às três e meia da manhã na represa de Martinópolis... RUBENS Morreu de que jeito? JÚLIO Encheu o cú de cocaína e montou numa seiscentas... CORTA PARA:

122.

149

EXT./NOITE - RIO

149

Vemos a luz refletida na água e, distante ao fundo, um bar e várias com pessoas festando. 150

EXT./NOITE - BAR NA BEIRA DO RIO - MARTINÓPOLIS

150

Vemos um prato cheio de cocaína em cima de uma mesa de bar, na calçada logo adiante, a multidão. Ouvimos o som cortante da aceleração. Duas motos em posição, vão tirar um racha. Rodrigo está em cima da moto, parada. Suado, ele dá longas puxadas pelo nariz e massageia-o com as mãos, põe o capacete e sai acelerando, as pessoas dão gritos de incentivo. Rodrigo sai em disparada por uma longa rua reta rente à água. Vemos ele e seu adversário nas motos. Voando, passam pelas esquinas sem sequer mover os olhos para os lados. Ele grita na adrenalina. Um cruzamento se aproxima. Em dois segundos vemos uma enorme pick-up que passa pelo cruzamento, a moto se aproxima como uma bala, vemos tudo por trás de Rodrigo que não tem tempo de esboçar qualquer reação. No momento do choque voltamos para os policiais Júlio e Rubens no escritório. 151

INT./DIA - DELEGACIA - SALA DE RUBENS

151

Ouvimos o som da terrível batida. RUBENS Não acredito... JÚLIO O motorista da caminhonete também morreu... E não é só isso. RUBENS O que mais? JÚLIO O fio de cabelo... RUBENS Não vai me dizer que...

(CONTINUA...)

...CONTINUANDO:

123.

JÚLIO Não tinha nada a ver com a parada. Júlio ri sozinho. O delegado permanece em silêncio, atônito. JÚLIO Sossega Rubens. Acabou. Pode ficá uns dias aqui se você quiser, sua sogra mora aqui né? Então, você pode tirar uns dias de folga... RUBENS Pra ficar com a minha sogra? Prefiro atirar num inocente... Risadas. CORTA PARA: 152

INT./DIA - CARRO EM MOVIMENTO

152

Rubens dirige aliviado, um pequeno sorriso está estampado em seu rosto demonstrando a satisfação. No rádio ouvimos a notícia: RÁDIO (OFF) A polícia fechou nesta madrugada uma boate que funcionava como ponto de venda e consumo de drogas num bairro nobre em Prudente. Diferentes tipos de entorpecentes foram apreendidos e o delegado responsável Silas Marconi disse que nunca tinha visto tamanha variedade de drogas num só lugar. Vinte e seis pessoas foram presas em flagrante... Rubens abre um sorriso. Muda a estação de rádio e passa a ouvir uma música. 153

EXT./DIA - CARRO

153

Vemos por cima o carro seguindo seu caminho pela avenida até desaparecer ao som de uma música. Tela escurece.

124.

154

TELA ESCURA

154

Vemos algumas linhas em branco fora de foco subindo no meio da tela. Tela clareia e a música diminui. FUSÃO PARA: 155

INT./DIA - CASA DE DONA LOURDES

155

Vemos que as linhas eram os degraus da entrada da casa de Dona Lourdes. Rubens estaciona sua viatura em frente. O delegado desce e repara que o Fusca da sogra não está na garagem. Ele toca a campainha; não tem ninguém. Com sua chave o delegado entra na casa. 156

INT./DIA - CASA DA SOGRA

156

Ele entra na casa, nada de anormal. Vai até a cozinha, na geladeira está colado um bilhete: "Oi amorzão, cheguei 10:30, fui com a mamãe no super mercado. Espera a gente aí! Beijoooo!" O delegado sorri, não poderia estar mais feliz, ele senta-se à mesa e começa a ver televisão, no noticiário a imprensa comunica o falecimento de Rodrigo e a polícia declara que ele é o principal suspeito das mortes, tudo resolvido; alguns minutos depois ele avista o carteiro colocando a correspondência na caixa, ele levanta-se e vai buscar. 157

EXT./DIA - QUINTAL DA CASA

157

O delegado sai e pega as cartas na caixa do correio. Contas, propagandas, etc. Ao retornar para dentro ele avista no jardim um envelope no chão e pega-o, percebe que está sem selo e sem remetente, apenas diz "Professora Lourdes", o carteiro ainda estava na frente do portão organizando as coisas em sua bolsa.

(CONTINUA...)

...CONTINUANDO:

125.

RUBENS Ô parceiro... CARTEIRO Sim. RUBENS O senhor trouxe essa carta também? O carteiro analisa o envelope. CARTEIRO Não senhor, não tem selo, nem carimbo dos Correios, nem nada. De certo que alguém jogou aí dentro. Rubens olha para o envelope em silêncio durante alguns segundos. Sua expressão não é mais de alívio. CARTEIRO Senhor? RUBENS Muito obrigado parceiro, bom serviço. CARTEIRO Obrigado senhor. O delegado retorna para dentro da casa olhando fixamente para o envelope. 158

INT./DIA - COZINHA DA SOGRA

158

Ele senta-se na mesa da cozinha novamente, encarando o envelope. Música de suspense. Seus pensamentos começam a ferver. RUBENS (OFF) Professora Lourdes... Já faz um século que ela num é mais professora... Ele coloca o envelope contra a luz para ver se enxerga o que tem dentro, está incomodado; mas deixa o envelope sobre a mesa e sai pela porta. Segundos depois ele retorna, pega o envelope e abre-o. Dentro tem uma foto da turma de 5ª série.

126.

Imediatamente ele olha para o bilhete na geladeira: Super mercado. 159

EXT./DIA - CASA DA SOGRA

159

Ele sai "voando" com a viatura. Logo após sua saída um Chevette encosta-se na frente da casa, o mesmo que apareceu em frente à casa de Valéria no começo. CORTA PARA: 160

INT./DIA - CARREFOUR

160

O super mercado está completamente lotado, Rubens olha aflito para a multidão e não consegue identificar sua esposa. Ele vai até o balcão e pede para que a operadora a chame pelo alto-falante. Sem paciência ele resolve ir até o estacionamento. 161

EXT./DIA - ESTACIONAMENTO

161

Rubens procura entre os carros o Fusca de sua sogra. Avista-o. O Fusca é verde, chama a atenção. Ao aproximar-se do carro ele nota que está aparentemente tudo OK, olha o interior do carro, nada incomum, certamente ainda estão fazendo compras. Ele resolve retornar ao mercado. Quando se afastava do veículo percebe uma sacola do mercado voando bem na sua frente, ele pára e olha para a sacola que voa pelo chão até sair de cena. Ele fica desconfiado e volta até o carro. Embaixo do carro ele vê vários produtos espalhados pelo chão e mais algumas sacolas. Ele tenta abrir o carro, está destravado, ele entra. Senta-se no banco do motorista e põe a mão direita no volante. Seu celular toca. Ele sai do carro e, ao sair, vemos sua mão direita que estava ao volante e agora está ensangüentada. (CONTINUA...)

...CONTINUANDO:

127.

Já fora do veículo ele põe a mão no bolso e retira seu celular. Ele olha para o aparelho, mas a primeira coisa que percebe é sua mão suja de sangue. A identificação do celular diz: Dona Lourdes. CORTA PARA: 162

EXT./DIA - CASA DA SOGRA

162

Vemos a viatura em altíssima velocidade entrando pela calçada e quase batendo no portão da casa. Rubens desce correndo com sua arma em punho, avista o Chevette. Gritando ele atira-se contra a porta que imediatamente arrebenta-se no chão. Rapidamente ele se levanta e procura pela casa. 163

INT./DIA - QUARTO DE DONA LOURDES

163

Ao chegar no quarto vê sua sogra caída no chão, encostada na parede. RUBENS Dona Lourdes! Ele vai até o corpo, checa a pulsação e leva a mão ao rosto para conter o choro, ela está morta. Durante alguns segundos ele encara o cadáver, respirando com dificuldade. RUBENS (sussurando) Fernanda... Ele então olha para os olhos da sogra. Close no rosto sem vida de Dona Lourdes, seu olhar aponta para algum lugar. Rubens vira-se, o guarda-roupas está com a porta encostada, novamente ele olha para a sogra. Abre a porta do guarda-roupas e lá está Fernanda com três tiros no peito, toda ensangëntada, com a boca aberta pingando sangue e expressão de sofrimento. Ele se levanta, vai até o corpo, volta, vai até ele novamente; não acredita no que vê, não chora, está em choque. (CONTINUA...)

...CONTINUANDO:

128.

Olha incrédulo para os corpos e faz movimentos descordenados. Solta a arma que cai no chão. Caminha até perto do corpo de Fernanda, ajoelha-se e põe as duas mãos no rosto. Desespero absoluto, porém, em silêncio. 164

INT./DIA - CORREDOR

164

Vemos os pés do assassino andando pelo corredor, ele tropeça em alguma coisa. 165

INT./DIA - QUARTO DE DONA LOURDES

165

Rubens ouve os passos. O assassino chega na porta com a arma apontada. Rubens chuta o guarda-roupas e impulsiona-se para trás. É atingido por um tiro no ombro esquerdo. Pega a arma com a mão direita e dispara acertando o braço do assassino que desvia a mira de sua arma e atira na porta do guarda-roupas. O delegado dispara sete tiros que atingem o peito do assassino, o oitavo, no meio dos olhos. Julia cai, liqüidada. Rubens encara-a. TIROS das cenas passadas retornam à mente do delegado. 166

INT./DIA - CHURRASCARIA CARLA Ah! Quando eu era criança tinha uma menina deficiente na minha sala na escola... todo mundo tinha medo dela e achávamos que ela era um monstro, coisa de 5ª série sabe... uma vez ela matou o cachorro duma amiga nossa, meteu a faca no bichinho...

166

129.

167

INT./DIA - CASA DA SOGRA

167

LOURDES Julia é uma menina que nasceu defeituosa e cresceu malcriada, respondona e sem educação. As menininhas da sala zuavam dela todo dia... O Rodrigo detestava, mas aquela menina era ruim, gente ruim sabe... 168

INT./DIA - CASA DE VANDA MEIRELLES

168

VANDA Coitada as meninas falavam cada coisa horrível pra ela... 169

INT./DIA - CASA DE JULIA

169

JULIA Elas vão receber a punição que merecem, todas elas... 170

INT./DIA - CASA DE JULIA (DE VOLTA)

170

Rubens repara na jaqueta que ela usa, marrom. TIRO das imagens da câmera de segurança do prédio onde uma pessoa aparece com essa jaqueta. TIRO da casa de Julia, o delegado se lembra que viu uma jaqueta igual posta no encosto de uma cadeira. CORTA PARA: 171

EXT./NOITE - BOCA DE FUMO

171

Vemos Rodrigo trocando a arma por droga com o traficante. 172

EXT./NOITE - BOCA DE FUMO

172

Vemos Julia na mesma "boca", comprando e pagando a arma ao traficante. CORTA PARA:

130. 173

EXT./DIA - PORTÃO DA CASA DE DONA LOURDES

173

Vemos Julia de costas jogando o envelope no quintal. 174

INT./DIA - QUARTO DE DONA LOURDES

174

Dona Lourdes apavorada com as mãos no rosto, chorando. Ela está no canto direito, dentro do quarto. Ouvimos passos, giramos para a esquerda e vemos o corredor onde vem Julia segurando Fernanda pelo braço, com a arma na outra mão. FERNANDA (chorando) Por que você tá fazendo isso? Elas se aproximam e entram no quarto. Agora vemos Dona Lourdes no fundo, Julia e Fernanda de costas. Julia abre uma porta do guarda-roupas e diz para Dona Lourdes: JULIA Professora! Olha só!!! Ela empurra Fernanda para dentro do guarda-roupas e dispara três tiros à queima roupa. Vemos apenas a porta aberta do guarda-roupas. Dona Lourdes grita desesperadamente e acaba caindo sentada no chão. Mais gritos de horror e então ela leva as duas mãos ao peito e começa a respirar ofegante, sufocando, está tendo um ataque cardíaco. CORTA PARA: 175

INT./DIA - QUARTO DE DONA LOURDES - DE VOLTA

175

Silêncio. Rubens deitado com a arma na mão. Vemos o corpo de Julia. Vemos o corpo de Fernanda. Agora vemos todo o quarto, as pernas de Dona Lourdes à direita, Rubens deitado no centro, Julia, e Fernanda dentro do guarda-roupas. (CONTINUA...)

...CONTINUANDO:

131.

Na parede acima do delegado está o quadro da turma; lentamente nos aproximamos dele até o rosto de Julia, cabisbaixa, ficar em primeiro plano. Ouvimos um tiro ensurdecedor. Silêncio. FIM

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